Aiguilles de Bavella

O reino maravilhoso do tafonni

"... o colo de Bavella é um dos sítios mais incríveis e idílicos da Córsega!"

Juntamente com as torres genovesas dispersas ao longo da costa recortada, as falésias brancas de Bonifacio e o mágico pôr do sol nos Calanques de Piana, o colo de Bavella é um dos sítios mais incríveis e idílicos da Córsega. Tudo nos remete para este lugar que tão bem caracteriza a ilha.

Existem duas maneiras de chegar ao famoso colo. A primeira opção parte do interior, passando pela pitoresca aldeia de Zonza, conhecida pela silhueta fantástica das agulhas de granito em pano de fundo. A segunda opção (e a que tomámos) começa junto da costa, na vila de Solenzara. São quase trinta quilómetros até ao colo, metade percorridos ao longo do rio com o mesmo nome da vila, conhecido pelas suas enormes piscinas naturais, onde também nós nos divertimos no meio de saltos e mergulhos, numa água que para nossa surpresa se encontrava a uma temperatura formidável! A outra metade do caminho é de cortar a respiração, pelo que seguimos sinuosamente ao longo do extenso vale cercado pelas enormes agulhas que parecem não ter fim! É impossível não me imaginar no topo de todos aqueles picos, ou a subir em “cordada” com o Jorge por aquelas paredes tão lisas e claras, ornamentadas pelas espectaculares cavidades arredondadas conhecidas por tafoni.

O caminho a subir é feito à sombra de uma floresta exuberante e densa, proporcionando-nos de tempos a tempos vislumbres das agulhas que se erguem cada vez mais alto. Pouco depois de começarmos a ver umas casinhas típicas de montanha, curvamos uma e outra vez e… “voilá“… chegámos ao colo de Bavella, a 1280 metros de altitude!

Não encontro palavras perfeitas para descrever este lugar que ficará para sempre imortalizado no nosso coração. É difícil e nem gosto de classificar os diferentes lugares onde estivemos, porque todos são únicos e todos nos ofereceram paisagens, culturas e experiências inigualáveis. No entanto, penso que foi neste lugar que a Córsega mais me marcou! Custava acreditar que estávamos numa ilha algures no mediterrâneo, aquando envolvidos numa paisagem tão alpina! Mas… bastava olhar para o horizonte e lá estava ele… o mar! Não é por mero acaso que os antigos gregos chamaram à CórsegaL’ílle de la Beauté“, a ilha da beleza!

Uma imagem perfeita, num final de tarde que romantizava a paisagem à nossa volta, com os seus tons suaves e rosados. Mesmo à nossa frente, lá estava o vale por onde tínhamos passado minutos antes… Era impossível identificar a estradinha no meio daquele manto de árvores centenárias! Não havia um único cantinho sem elas! Pinheiros mediterrânicos misturados com abetos e os fantásticos pinheiros larícios, as árvores mais lindas que alguma vez vi… os seus ramos finos estendem-se quase paralelos uns aos outros conferindo-lhes um aspecto laminar e muitas vezes encontram-se curvadas pelos ventos dominantes. Pareciam mesmo retiradas de uma zona montanhosa na China.

De ambos os lados do vale erguem-se as enormes agulhas graníticas, cada uma mais majestosa que a outra, chegando algumas a atingir quase os 1900 metros. Recortes fantásticos conferem uma bela silhueta aos maciços de granito, numa paisagem dominada por tons verdes e beijes. Já o céu, num tom rosa e violeta, indicava o final de mais um dia e nós ficamos mais um pouco, deambulando de rocha em rocha pelo colo repleto de pequenas pinhas espalhadas no manto claro da erva seca.

"... Uma imagem perfeita, num final de tarde que romantizava a paisagem à nossa volta..."

"...Perdidas entre elas encontram-se mensagens de esperança e conforto de quem ali passa."

Novo dia… num total de quatro que ali passamos! Há tanto para fazer e para ver! O maciço de Bavella permite uma panóplia de actividades para os entusiastas da natureza, desde simples a longas e técnicas caminhadas, inúmeras vias de escalada desportiva e clássica, rios para a prática de canyoning, trilhos de bicicleta de montanha, entre outras.

Decidimos começar pela escalada. Existem inúmeras possibilidades para a prática desta modalidade, desde vias de desportiva de poucos metros ou já com alguns largos, até paredes de várias centenas de metros para a prática de escalada clássica. Um verdadeiro paraíso para os amantes de deporto de natureza, e como viemos a perceber mais tarde, o local ideal para a prática de escalada clássica, onde a progressão implica a colocação de material nas fragilidades da rocha. Para além de não termos muita experiência nesta área, também não tínhamos material suficiente para uma ascensão de centenas de metros neste registo. Aquelas paredes e agulhas imponentes deixaram-nos de lágrima no canto do olho e com um desejo enorme de voltar para as conquistar.

Já tínhamos o sector de escalada escolhido e antes de iniciarmos o trilho passámos pela Notre Dame des Neiges, a estátua da Nossa Senhora das Neves, minuciosamente esculpida em granito branco e colocada no topo de milhares de pedras amontoadas umas em cima das outras. Perdidas entre elas encontram-se mensagens de esperança e conforto de quem ali passa.

O que não falta ali é rocha e o Jorge então… ficava louco com o sem número de possibilidades! Isto só num cantinho do maciço que estava mais perto do colo. Chegámos depressa ao sector Margherita, um afloramento de rocha com dezenas de vias de escalada. Comecei a subir por uma via mais fácil para aquecer e habituar-me ao tipo rocha. Muito diferente do calcário, presente em grande parte das serras onde escalamos em Portugal, o granito exige um reportório de movimentos completamente diferente, tornando a escalada mais exigente e técnica. A parede de rocha é normalmente vertical ou inclinada (positiva) e mais lisa, obrigando a passos mais delicados.

Gostei imenso do toque, da textura irregular dos cristais e da beleza dos tons da rocha, tão clara. Muito abrasiva, permitia-me confiar plenamente nos pés e progredir tranquilamente. Foi engraçado poder estar à conversa com uma senhora a escalar praticamente ao meu lado. No ar, lançava palavras de coragem, num tom suave e seguro de quem já faz isto há uma vida inteira. E divertida lá cheguei acima! Fiz segurança ao Jorge, que subiu até meu encontro, numa simpática plataforma com dois grandes pinheiros de cada lado. Agora era a vez de ele ir à frente e eu segui logo atrás pela grande parede inclinada… É preciso confiar mesmo muito nos pés para continuar a subir usando apenas as pequenas protuberâncias do granito para colocar as mãos.

Maravilhada com o ambiente alpino à minha volta continuei vibrante até ao topo, onde uma fantástica vista sobre o colo me aguardava. Ainda mais montanhas de rocha apareceram à nossa frente! Intermináveis! E enquanto as nuvens se amontoavam no céu, continuámos ali, divertidos pela paisagem. Irrequietos, já estávamos a magicar escalar a parede que se encontrava ao lado para podermos chegar ainda mais alto! Ao longe, pendurados nas cordas, víamos o casal que tínhamos conhecido momentos antes, e nós sedentos de mais aventura, precipitámo-nos no seu encalço.

"Maravilhada com o ambiente alpino à minha volta continuei vibrante até ao topo... "

"...E apesar do mundo ser algo finito, para o nosso curto tempo de vida terá sempre um carácter de infinidade. "

Minutos mais tarde, já nós estávamos de volta da corda e das expresses, preparando a próxima subida num sector chamado Murzella. O objectivo não era apenas escalar, passava também por chegar cada vez mais alto! Sempre essa ambição… Porque não conseguimos ceder a essa tentação?! Acho que isso também nos define… Não paramos enquanto não vemos tudo, enquanto não chegamos ao ponto onde tudo culmina… e às vezes nem assim ficamos convencidos… porque aparece sempre a questão: “Como será do outro lado… Como será mais além, naquele pico?!“. De certa maneira é o que nos move, porque existe sempre a curiosidade de ir mais longe… E apesar do mundo ser algo finito, para o nosso curto tempo de vida terá sempre um carácter de infinidade!

Começámos a escalar debaixo dos belíssimos pinheiros larícios e seguimos pela placa de rocha acima com movimentos curtos e delicados. A uma dezena de metros do chão já nos encontrávamos bem acima da copa das árvores. Fiquei pendurada na parede, numa reunião (ponto de ancoragem que divide uma via de escalada em várias secções) que antecede um tecto e me esconde do topo. Entusiasmada, vejo o Jorge pendurado no tafoni, executando movimentos artísticos, quase deitado sobre o vazio, até rapidamente sair do meu campo de visão. A partir daqui só o movimento da corda me lembrava da sua presença. Depois de uns assobios lá fui eu divertida à medida que deambulava o corpo pelo meio dos diversos sulcos característicos do tafoni. Que satisfação me dava! Depressa passei o tecto, que seguido de mais uma secção de placa, me levou ao topo.

Daqui escapavam sonhos de outros cumes, ainda mais altos, mais íngremes e menos acessíveis. Ainda era cedo mas as nuvens escuras já se amontoavam, sinal de que a chuva já não tardava a molhar a nossa preciosa rocha. Não vale a pena lutar contra a natureza… nós seguimos o seu ritmo e é ela que nos impõe sempre os limites. Apesar de querermos chegar mais alto, sentimo-nos satisfeitos por ela nos ter permitido chegar ali.

Através de pequenas abertas nas nuvens à nossa frente, conseguíamos ter alguns vislumbres do colo de Bavella, do vale e das enormes agulhas em seu redor. Do outro lado, silhuetas cada vez mais esbatidas, pertencentes às montanhas e vales que se estendem a sudoeste. E mesmo atrás de nós, mais pináculos de rocha e pinheiros larícios a perder de vista. Tão bonito!

Em poucos segundos deixávamos de ver as agulhas de rocha devido aos bancos de nevoeiro. Cada vez mais frequentes, apareciam tão rapidamente como desapareciam. Para uma meteorologista como eu, todos estes fenómenos são um verdadeiro encanto e acrescentam ainda mais valor aos lugares por onde vou passando…. Em vez de ficar a lamentar o mau tempo fico debruçada a vê-lo transformar-se continuamente em meu redor.

"Daqui escapavam sonhos de outros cumes, ainda mais altos, mais íngremes e menos acessíveis..."

"...Uma menina passou por ali e gritou ao ver umas pernas saídas de dentro de uma rocha de olhos redondos.. "

Era uma vez… um tafoni solitário perdido nas montanhas da Bavella. Certo dia passou um rapazinho e o tafoni à espreita, esperou que ele se aproxima-se. Ficou imóvel, aguardando silenciosamente o rapaz, que mal lhe pôs a mão em cima, foi surpreendido pela sua enorme bocarra.

A menina que vinha logo atrás gritou ao ver umas pernas saídas de dentro de uma rocha de olhos redondos “Tafoni malvado não leves o meu menino!“. Puxou-o pelas pernas até finalmente libertá-lo das entranhas do terrível tafoni. Felizes e a salvo, ambos suspiraram de alívio, deixando aquele lugar.

Pois é… esta é a história do tafoni mais engraçado que encontrámos na Córsega, e acreditem que são aos milhares! Foi impossível não parar para brincar com aquela rocha, com uma enorme boca e dois olhos engraçados, que nos fazia lembrar um fantasminha.

Saímos de junto do tafoni com alguns arranhões merecidos e procurámos um caminho que nos devolvesse ao colo. Foi então que encontrámos umas pequenas marcas verdes e umas mariolas aqui e acolá, indicando o trilho para baixo. Seguimos desfrutando da paisagem magnífica que nos rodeava, essa envolvida num manto místico criado pelos bancos de nevoeiro, até finalmente chegarmos à base da parede onde começámos a escalar pela primeira vez.

Arrumámos o resto do material que ali tínhamos deixado e ao mesmo tempo que começámos a lanchar e que a malta ao lado começou a escalar, desata a chover! A chover e a trovejar!

Já não valia a pena correr e nós mais que habituados à coisa pegámos no saco da corda, estendendo-o sobre os ramos do pinheiro para sempre nos poupar a mais algumas gotas da chuva. Ai como eu adoro ouvir trovejar! Que delícia comer ao som da chuva e de trovões!

"...paisagem magnífica... essa envolvida num manto místico criado pelos bancos de nevoeiro"

"... Envolvidos no manto do nevoeiro, víamos as árvores a desvanecer poucos metros à nossa frente... Um quadro simplesmente mágico!"

Depois da paparoca fizemos o trilho de volta ao colo. Antes de chegarmos lembro-me do quão encantada fiquei a percorrer, debaixo de chuva, o pequeno trilho rodeado por um manto beije de erva seca, polvilhado de milhares de pequenas pinhas. Envolvidos no manto do nevoeiro, víamos as árvores a desvanecer poucos metros à nossa frente… Um quadro simplesmente mágico! No entanto, foi quando se abeiramos da vertente do colo, um pouco mais à frente, que ficámos verdadeiramente abismados com a beleza daquele lugar.

A imagem das Aguilles de Bavella a cercar o vale já nos era familiar mas agora havia algo de transcendente que transformava a paisagem num cenário de pura fantasia. Tinha parado de chover há instantes atrás, porém o ar permanecia carregado de humidade, de tal forma que se viam restos de nuvens de forma desarranjada a pairar sobre os pinheiros e os pináculos de rocha. Tão bonito!

O sol invejoso e sedento por mostrar que também embeleza a paisagem, começou a espreitar, criando áreas cheias de luz e cores vivas, que alternavam com as sombras das nuvens que envolviam o manto de árvores. Um contraste magnífico e que jamais esquecerei.

Envolvidos na nostalgia deste lugar caminhámos um pouco de mãos dadas por entre os pinheiros, largando no ar palavras de felicidade e contemplação. O sol espreitava mas as nuvens não se rendiam assim tão facilmente, e nós confiantes de um tempo mais agradável lá em baixo, seguimos de volta às curvinhas do vale até ao rio Solenzara. Impressionante pensar que minutos depois de estarmos envolvidos por uma cortina de água, iríamos estar a deliciar-nos nas piscinas naturais de água cristalina, com um sol agradável apesar de tímido.

les aiguilles de granit

Col de Bavella, Corse

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2 Comments

  1. Luis Neves

    Uma crónica, história, seja o que for, mas muito bem descrita que até parece que estamos lá a fazer o “aquecimento” na rocha abrasiva do setor Margherita, ou dentro do tafoni. Magnífico.

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    • Solange Domingues

      Obrigada Neves 😊 ficamos muito contentes pelo teu feedback. São palavras assim que nos motivam para continuar. Quando escrevo volto a ficar imersa naquele tempo e lugar tentado passar por palavras o momento vivido tal como as paisagens. Beijinhos

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