Bonifacio

Uma cidadela perdida no tempo

"...as casinhas estreitas e altas, encavalitadas umas nas outras, pareciam querer mergulhar no Mediterrâneo."

A viagem entre Santa Teresa di Gallura na Sardenha, e Bonifacio na vizinha Córsega, fez-se tranquilamente a bordo do ferry da BluNavy. E eu recordo-me bem do entusiasmo que sentia ao andar de um lado para o outro enquanto a pequena embarcação cruzava o estreito de Bonifacio, este que separa as lindas ilhas por apenas onze quilómetros!

A viagem demora o tempo suficiente para podermos contemplar a vista da costa sarda à medida que nos afastamos dela, e ao mesmo tempo, quase sem darmos conta, começamos a ver cada vez mais de perto os contornos da ilha francesa que se vai aproximando.

E realmente pouco tempo passou até nos empoleirarmos sobre o corrimão azul, espreitando as famosas escarpas de calcário branco onde assenta a impressionante citadelle de Bonifacio.

À medida que nos aproximávamos, as casinhas estreitas e altas, encavalitadas umas nas outras, pareciam querer mergulhar no Mediterrâneo. Era impressionante a sua ousadia!

Depois de passarmos pela gruta marinha de Sdragonato no extremo do promontório que ostenta a citadelle, entrámos pela boca de Bonifacio até chegarmos ao singelo porto, protegido do mar aberto por se encontrar nas margens sossegadas do pequeno canal.

A geografia deste lugar faz lembrar um fiorde norueguês. As magníficas cores da interface da falésias com o mar começam num tom verde acastanhado e terminam num tom azul profundo. Logo acima, as paredes de rocha juntamente com as muralhas guardam a pequena vila.

Irrequietos, saímos do ferry a bordo do nosso grande Renault Clio, um verdadeiro explorador internacional, e já com o roteiro estudado, seguimos até ao topo da falésia a este da citadelle.

Que quadro absolutamente apaixonante! A mais célebre vila corsa deve muito da sua beleza ao espantoso lugar onde se encontra… imaginem um fiorde com falésias de calcário branco, cuidadosamente esculpidas pelo vento e pelo mar, e empoleirada sobre estas, uma cidadela de ruas estreitas e casinhas de tons beijes e claros, repousando a setenta metros das águas azul turquesa do mediterrâneo. E a cercá-la, uma floresta de maquis a perder de vista, com as montanhas a surgirem gentilmente no horizonte. Ao olhar para baixo ficava hipnotizada pelos diferentes tons azuis criados pelo fundo do mar, onde bocados de rocha arrancados à falésia ao longo do tempo, davam lugar às mais variadas tonalidades conforme a sua forma e profundidade.

"... falésias de calcário branco, cuidadosamente esculpidas pelo vento e pelo mar, e empoleirada sobre estas, uma cidadela de ruas estreitas."

"Havia cantinhos onde o mar parecia ter sido pintado por um artista, com uma palete enorme de tons azuis..."

Percorremos um trilho junto à falésia, embrenhados no maquis (arbustos muito densos típicos de regiões mediterrânicas) e espreitando quase de minuto a minuto as águas azul turquesa que nos seduziam na base da falésia.

Deleitámos-nos com a intensidade das cores vibrantes naquele dia quente de Verão… com os cheiros suaves da vegetação… e com o toque suave da breve brisa que ia passando por nós! Que ar tão puro! A tranquilidade deste lugar, onde o branco, azul e verde dominam os tons da paisagem, era incrivelmente sentida à medida que caminhávamos de mãos dadas. Havia cantinhos onde o mar parecia ter sido pintado por um artista, com uma palete enorme de tons azuis, tão bonitos e vivos,  terminando no branco das falésias tocadas pelo sol. Tão brilhante que quase nos cegava!

Já mais próximos da citadelle, avistamos o famoso Grain de Sable (em português, grão de areia), que grão seria apenas aos olhos de um gigante… Para nós humanos, este é um enorme pedaço de rocha que permanece graciosamente sobre o mar, depois de ter sido arrancado da falésia pelas intempéries do tempo há milhares de anos atrás.

Depois de descermos um pouco no trilho abriu-se finalmente a janela que dava para a muralha que guarda as ruelas da cidadela medieval. Ainda nem nos tínhamos aventurado nas suas ruas e eu já dizia que era a vila mais fantástica que alguma vez vira, como se retirada de um livro de fantasia!

Agora, bem de pertinho, dava para perceber que as casinhas se amontoavam à beira de uma falésia não vertical mas sim extraprumada! Que brilhante ousadia! Podíamos ver água de ambos os lados da citadelle… à direita o mediterrâneo, com a afluência de embarcações de passeio típicas de Verão e à esquerda o canal que termina no pequeno porto onde tínhamos desembarcado momentos antes.

Nem uma estrada, uma casa ou até uma ruína… nem mesmo um único campo agrícola se avistava até às montanhas lá no horizonte… apenas Natureza… uma Córsega genuinamente selvagem!

A nossa felicidade era contagiante e não era para menos… aquele lugar é simplesmente mágico!

"...abriu-se finalmente a janela que dava para a muralha que guarda as ruelas da cidadela..."

"... a atmosfera deixa-nos a fervilhar com a agitação do quotidiano..."

Descemos o resto do trilho até à estrada, só para voltarmos a subir pela calçada até à Porte Gênes, uma das duas entradas para o coração da vila histórica.

Quando entramos pelo portão sentimos-nos a recuar no tempo. As casas de tons claros com janelas de traços típicos, ecoam tempos passados, pelo que ainda se mantêm com as paredes velhas de tinta já gasta.  Ao mesmo tempo somos invadidos pelo encanto dos traços e texturas de tudo o que nos rodeia, tal como pelas cores e cheiros vindos de todo o lado! 

Aqui a atmosfera deixa-nos a fervilhar com a agitação do quotidiano onde os locais e os turistas se misturam num reboliço de um dia típico de Verão. É incrível atravessar o emaranhado de ruas estreitas onde não faltam pequenas lojas de comércio local e os mais agradáveis restaurantes de onde escapam deliciosos cheiros e aromas.  Lembro-me de espreitar através das portas de restaurantes e lojas onde as janelas do lado oposto oferecem vislumbres para o mar. Sim! São as tais casinhas que se encontram literalmente à beira do precipício!

Um lugar perigosamente lindo e ao mesmo tempo tão romântico!

As escaliers du Roy Aragon (escadaria do Rei Aragão) perfazem um total de 185 degraus, com uma inclinação de 45 graus, e que vão desde o topo da falésia, junto às casas da citadelle, até à sua base, 70 metros abaixo, junto ao mar. Toda ela esculpida na própria rocha!

Reza a lenda que a escadaria foi escavada à mão, apenas numa noite, pelas tropas do rei de Aragão Alfonso V, no cerco de Bonifacio em 1420. Não sei se a lenda contém a verdade ou se estamos diante de uma história magnificada pelos tempos, no entanto, a obra levada a cabo por aqueles homens é deveras impressionante! As escadas são tão abruptas que quando começamos a descer conseguimos ver praticamente todos os degraus até ao mar!

Uma experiência fantástica e que não acaba com o último degrau! Como se a vertiginosa experiência não bastasse para nos tirar o fôlego, ainda percorremos parte da base da falésia a menos de uma dezena de metros do mar, ziguezagueando pelos seus contornos e terminando com uma vista soberba da escarpa um pouco mais à frente. O carreiro escavado na rocha tem uma largura que mal permite passarem duas pessoas lado a lado e eu podia tocar facilmente o tecto à medida que caminhava, desfazendo o suave  calcário com as pontas dos meus dedos.

" Reza a lenda que a escadaria foi escavada à mão, apenas numa noite, pelas tropas do rei de Aragão..."

"...Com aquele mar incrível, qualquer cantinho era perfeito para um mergulho!"

De volta ao topo da falésia, continuámos a percorrer as elegantes ruelas de mãos dadas, e quando o sol apertou, deliciamos-nos à sombra dos chapéus de uma esplanada, refrescados pelas bebidas e embalados pela música tocada por artistas corsos do outro lado da rua.

Depois de termos explorado mais alguns recantos de Bonifacio voltamos a fazer o trilho de volta ao carro, contemplando a paisagem agora no sentido inverso. Paisagem essa que nos continuava a maravilhar com as impressionantes falésias, as lindas enseadas e os subtis contornos da Sardenha no horizonte. Com aquele mar incrível, qualquer cantinho era perfeito para um mergulho!

Despedimos-nos de Bonifacio com a vista do Cabo de Pertusato, onde se encontra um lindíssimo arco natural e uma língua de rocha branca que se estende até ao mar. O fiorde, as muralhas, a citadelle, as falésias, as montanhas e todo o território dominado pela Natureza. Estava completamente apaixonada por aquele lugar. Não existem palavras onde caiba tamanha beleza! Sem dúvida um maravilhoso primeiro impacto da ilha corsa. E tanto que ela ainda tinha para mostrar!

falaises de sable

Bonifacio, Corse

também em córsega

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

one × two =

EnglishPortuguese