Golfo di Orosei

Falésias brancas e mar turquesa

" ... Era incrível voltar a um sítio que tanto nos apaixonou. Sentíamo-nos tão bem... tão em casa, que parecia que nunca tínhamos chegado a cruzar fronteiras."

Cada vez que pensamos numa viagem nova, os nossos corações aceleram, as palmas das mãos começam a suar e os olhos brilham de emoção. Imaginamos mil e uma aventuras em tantos países diferentes que se torna quase impossível conseguir escolher um. Até porque os moldes pelo qual se desenvolve a própria viagem podem variar por completo. Podemos escolher fazer um trekking de vários dias, uma viagem de bicicleta, uma trip de escalada ou simplesmente viajar pela emoção de explorar um destino novo. Muitas vezes optamos mesmo por fazer uma espécie de mescla entre exploração e atividades de natureza numa só viagem.

E isto é o que acontece quando se gosta de fazer tanta coisa. É espetacular mas torna-se tão difícil de escolher quando chega a hora. Até porque a realidade do comum mortal é trabalhar um ano inteiro para conseguir uns escassos 22 dias de férias. Mas isso é outra história, uma que traria panos para mangas de tanta conversa que poderia dar.

Ainda assim, neste ano tínhamos várias opções na mesa e acabamos por fazer uma escolha diferente. Repetir um destino que não nos saía da cabeça… A Sardenha! Já tínhamos viajado para esta ilha dois anos atrás. Mas a sedução de voltar com um novo plano foi impossível de resistir. Até porque asseguramos que em duas semanas de viagem conseguimos explorar lugares e fazer coisas completamente novas e muito, muito mais havia para descobrir.

Repetir um destino é fazer uma viagem completamente nova e nós definitivamente não viajamos para carimbar mais um país na nossa bagagem de viagens. Até porque para conhecermos verdadeiramente algum lugar precisaríamos de anos para poder conhecê-lo mais intimamente.

A última viagem à Sardenha já tinha sido um mix entre trip de escalada e exploração da ilha. Desta vez decidimos fazer um dos trekkings mais incríveis do mundo, o Selvaggio Blu, explorar outras regiões da ilha e claro, pôr o cu de molho em mais uma panóplia de praias de sonho.

Repetir a viagem de carro até Barcelona e apanhar o ferry até à Sardenha soube-nos a algo tão familiar. Era incrível voltar a um sítio que tanto nos apaixonou. Sentíamo-nos tão bem… tão em casa, que parecia que nunca tínhamos chegado a cruzar fronteiras.

Partimos do Porto Torres diretamente até Cala Gonone, onde já tínhamos estado antes e onde iríamos viver mais uma grande aventura. E tudo começou num barco…

 

Era de manhã cedo. Acordei super feliz e irrequieta dentro do meu saco-cama. Queria sair dali e começar o quanto antes um dia que sabia ser diferente. Azul bebé, azul turquesa, azul profundo… azul de mil e um tons… esse azul que não me saía da cabeça. Era o que me esperava… esse azul.

Estávamos prestes a navegar no Golfo de Orosei! E os condutores? Pois bem, íamos mesmo ser nós!

Preparámos as mochilas, comemos qualquer coisa e saímos a pé do Parque de campismo de Cala Gonone até à marina. OK! Estava na hora de escolher uma entre um punhado de agências turísticas. Barraquinhas de madeira, cada uma com os seus painéis chamativos com fotos deslumbrantes de embarcações a cruzarem o tal mar de mil e um tons de azul.

Pouco demorou até já estarmos a discutir o plano de embarque com a simpática agente turística do Palmasera Boat Rental. Tudo muito simples e expedito até chegar o nosso “bateau”.

Está na hora em que a malta se deve estar a questionar se nós temos carta de patrão local para podermos conduzir um barco! Nahhhhhhhhh, nada disso! E zerinho de experiência também claro! Pois é… aqui na Sardenha não é necessário ter licença para conduzir uma embarcação até 40 cavalos.

15 minutinhos de aprendizagem e nem um testezinho de avaliação, já nós estávamos sozinhos e altamente competentes (ou não) para conduzir aquela coisa. E acreditem que 40 cavalos e 8 metros de comprimento não é coisa pequena. Para apimentar a coisa ainda te deixam uma geladeira para poderes levar… hum quem sabe… um carregamento de cervejas geladinhas. O menu perfeito para um desastre não?! Acho que em Portugal isto não ia resultar bem, porque será?!

-Vá, isto até parece fácil! Siga a marinha!

Ainda com um certo sentido de cuidado, lá saímos do porto de Cala Gonone em direção ao sul. Parecíamos duas crianças com um brinquedo novo, completamente exaltados de tanta euforia. Parecia inacreditável estarmos ali sozinhos, no meio de uma imensidão de mar, e podermos ir onde quiséssemos, lá está… de barco!

"Azul bebé, azul turquesa, azul profundo... azul de mil e um tons... esse azul que não me saía da cabeça. Era o que me esperava... esse azul."

"...As falésias são divididas por vales profundos, que terminam em baías em forma de ferradura, banhadas por águas brilhantes azul turquesa."

O Golfo di Orosei faz parte do maior parque nacional da Sardenha, O Parco Nazionale del Golfo di Orosei e del Gennargentu. Um cenário puramente selvagem, que se estende desde o planalto montanhoso do Supramonte até ao Golfo di Orosei. Aqui, as majestosas montanhas do Gernnargentu encontram abruptamente o mar, formando uma lua crescente de falésias dramáticas. As falésias são divididas por vales profundos que terminam em baías em forma de ferradura, banhadas por águas brilhantes azul turquesa.

São 40 quilómetros de costa, que se estende entre Santa Maria Navarresse e Cala Gonone. Falésias de calcário intimidantes imergem precipitadamente junto ao mar, recortadas por belas praias, enseadas de sonho e grutas à espera de serem exploradas. Com uma, em constante mudança, palete de tons de areia, rochas, seixos, conchas e águas cristalinas, as insondáveis forças da natureza conspiraram para criar um sabor sublime da natureza.

Um cenário absolutamente idílico, que de uma perspetiva do mar, se torna ainda mais apaixonante. Sentimos a liberdade de podermos navegar, ora chegados às falésias, ora afastados das mesmas. Ao longe, ficamos com a conjetura de toda a costa recortada, que se estende até ao horizonte, tanto para norte como para sul. Ao nos aproximarmos das paredes de calcário, podemos desvendar as mais belas formações e características de cada segmento de rocha.

As lapas e grutas de variados tamanhos também nos fazem querer parar para uma expedição rápida. À medida que navegamos para sul começam a surgir as famosas cavidades junto à linha de água, pertencentes à gruta do Bue Marino.

É possível visitar esta gruta de barco, visto existir um pequeno cais. Mas a melhor maneira de a encontrar, acreditem que é a pé. Um trilho de uma hora, iniciando na praia de Cala Fuili. Já o tínhamos feito no ano anterior. Caminhamos ao longo de uma magnífica floresta de macchia, até um estreito vale que desce quase até à cota do mar. Depois de descermos umas escadas, continuamos até à entrada da gruta suspensos sobre o mar através de um passadiço de metal, que nos permite ver o mar azul por debaixo dos nossos pés. Esta gruta permite visitas guiadas de uma hora e acreditem que vale bem a pena. Uma das grandes curiosidades associadas a ela é o facto de ter sido o último refúgio de um raro leão marinho, o bue marino, nome comum dado pelos pescadores locais e adotado mais tarde para o nome da própria gruta.

Continuámos rumo ao sul, a uma distância da costa que nos permitia detetar os detalhes curiosos das falésias que se iam tornando cada vez mais altas.

Depois da Grotta Bue Marino, a primeira baía a aparecer é a Cala Luna. Esta é uma das únicas praias de areia do Golfo di Orosei, e para além da sua beleza e enquadramento fantásticos, é um paraíso para os escaladores. De um lado, uma falésia cinzenta com vias de escalada entre os 20 e os 60 metros. Uma maneira excelente de obter uma vista privilegiada da praia e do golfo, ao mesmo tempo que a emoção de estar pendurado sob águas cristalinas torna a aventura bastante singular. Do outro lado, um segmento de falésia bem mais baixo e cheio de lapas junto à areia. Com um grau mais elevado de dificuldade, mas quem não quer fazer segurança com os pés dentro de água? O Jorge certamente que já se estava a espumar para as experimentar! E eu não me ficava atrás.

Não parámos aqui porque sabíamos que ainda nos faltavam tantas praias e enseadas para desvendar, e o tempo… bem, esse nunca para.

Até à próxima baía, a Cala Sisine, foram mais uns quilómetros de pura diversão a bordo do nosso barco e com o comandante Jorge Melo ao volante. Apesar de não ser a época mais alta na Sardenha, ainda víamos bastantes embarcações e ferrys a atravessar o golfo de um lado para o outro. Consoante os gostos e feitios de cada um, pode-se optar por usar o taxi-boat para nos deixar em alguma praia e recolher ao final do dia, fazer uma excursão a bordo de um ferry ou, tal como nós, alugar um barco para o dia inteiro A liberdade dessa opção pode variar, mas de uma maneira ou outra, um dia de sonho é garantidamente o que se vai ter.

"..Uma maneira excelente de obter uma vista privilegiada da praia e do golfo, ao mesmo tempo que a emoção de estar pendurado sob águas cristalinas torna a aventura bastante singular..."

"... Ficámos obcecados com a ideia de sermos um ponto naquela massa imensurável de rocha. Era absolutamente sedutora e ao mesmo tempo graciosamente intimidante."

Depois de passarmos a Cala Sisine, é quando as coisas começam mesmo a aquecer. As falésias tornam-se tão imponentes que nos obrigam a afastar delas para compreender a sua verdadeira extensão em altura. Absolutamente incrível!

Era agora que a verdadeira escala daquele lugar nos assombrava com a ideia de lhe pertencer. Era ali que dentro de uns dias nos irámos encontrar. Ficámos obcecados com a ideia de sermos um ponto naquela massa imensurável de rocha.

Era absolutamente sedutora e ao mesmo tempo graciosamente intimidante.

Avizinhava-se sem dúvida uma aventura fantástica. O Selvaggio Blu a fazer jus ao seu nome e à sua grande reputação. A prova estava mesmo à frente dos nossos olhos.

Fazer aquele trajeto de barco permitia-nos estudar a rota como se estivéssemos à frente de um mapa tridimensional. Uma oportunidade fantástica para termos uma melhor e mais aproximada ideia do que nos esperava do outro lado.

Conseguimos perceber que nos encontrávamos diante de uma secção da falésia onde teríamos de fazer escalada e rappel. Entre a base, junto ao mar, até ao seu topo, centenas de metros acima, só se identificavam uns estreitos patamares. Podíamos ver segmentos da falésia onde esses patamares eram interrompidos, o que indicava claramente a necessidade de rapelar.

Ao ver aquilo senti um misto de desejo e apreensão. Aquele enquadramento abismal metia-me bastante respeito. Imaginar-me a fazê-lo com uma mochila de vinte quilos às costas em modo autonomia era algo que dava certamente que pensar.

Do outro lado, uma floresta magnífica sobressai no meio da falésia. A sua inclinação é notória, de tal maneira que parece pendurada entre o mar e o céu. Mas há algo que nos detém a atenção, algo sobre o qual já tínhamos lido no guia. Parte dessa mesma floresta parece ter sido engolida por uma onda de fragmentos de rocha. Uma enorme derrocada da falésia superior, que acontecera dois anos antes. Deve ter sido um espetáculo abismal ver uma coluna enorme desfazer-se, tomando parte da floresta e deixando um rasto de destruição até ao mar. Pedregulhos enormes, um bloco colossal e um manto de matéria branca. O rasto de destruição indicava sem dúvida tratar-se de algo recente.

Deixámo-nos apaziguar novamente pelo barulho das ondas e pela brisa suave. De olhos colados nas incríveis paredes continuámos rumo ao sul. 

Estava a adorar a sensação de flutuar pelas águas azuis profundas. Completamente espojada na dianteira do barco, debruçava os meus braços na estrutura redonda de borracha. Absorvida pelas essências que vinham de todo aquele cenário, deixava-me embalar pelas ondas, com os olhos a brilhar tanto como esse mar azul por onde flutuava.

Passámos ao longo de falésias e florestas centenárias. Aqui e ali, espreitávamos para o interior de algumas enseadas e pequenas baías. A mais sedutora e uma das mais bonitas do golfo é a Cala Biriola. Famosa pelo trilho desafiante que desce ao longo da falésia, através de estruturas em ginepro (troncos entrelaçados) deixados por pastores, obriga ainda a fazer alguns rapéis.

Umas centenas de metros mais à frente, surge um cenário retirado de um sonho. A Piscine di Venere – Piscina de Vénus. De longe quase nem nos apercebemos da existência de uma enseada, mas os tons azuis turquesa junto à falésia são tão belos e intensos que nos convidam a aproximar. Vagarosamente, a embarcação vai cruzando um mar com tons progressivamente mais suaves até finalmente se desvendar uma pequena faixa de areia onde desaguam as águas cristalinas.

Uma pequena enseada de areia mesclada com pequenos seixos e com pouco mais de quatro metros de largura e cinquenta de extensão. A delimitá-la, encontram-se rochas brancas semi-submersas e imponentes arribas calcárias com 200 metros de altura, rodeadas por sua vez por uma densa e exuberante vegetação mediterrânica. A beleza imensurável do mar que a rodeia deve-se às inúmeras nascentes de água doce que fluem para a falésia sobranceira e às rochas calcárias muito claras que pontilham o seu fundo predominantemente arenoso.

Foi impossível resistir a este cantinho do paraíso! Levámos o barco até à margem para descarregar a tralha e fiquei de longe a ver o Jorge ancorá-lo. Saltou borda fora e veio a nado até ao meu encontro.

Finalmente de pés assentes na areia, pude saltitar entre os seixos até ao mar dos meus sonhos.

Sentia-me absolutamente radiante! Desde pequenina que tenho um encanto pelo mar e pela praia. O azul turquesa sempre foi a minha cor preferida e a natureza e montanha são uma paixão que nunca me deixou. Estava onde mais queria e sentia-me bem, tão bem.

A temperatura amena da água era perfeita para nos embrulharmos nela e os olhos permaneciam atentos para aquela intensidade vibrante de cores claras e alegres. A palete de azuis, os tons claros dos seixos, rochas e falésias, o verde da vegetação e nada mais. Um silêncio enternecido pela serenidade da brisa e dos seixos redondos que são levados para cima e para baixo pelas singelas ondas que chegam à praia.

Nadámos, relaxámos na areia, escutámos e contemplámos a paisagem e sorrimos, sorrimos tanto juntos. Era sem dúvida a piscina mais bonita do mundo. Uma piscina digna dos deuses gregos. 

"... Um silêncio enternecido pela serenidade da brisa e dos seixos redondos que são levados para cima e para baixo pelas singelas ondas que chegam à praia."

" ... Eu e o Jorge somos duros de roer e não nos queríamos dar por vencidos. Queríamos fazer à nossa maneira e à nossa maneira apenas. Então, optámos pela brilhante ideia de esconder água comida em alguns pontos-chave do troço."

Podíamos ter ficado na Piscine di Venere até ao último sopro de sol, mas ainda havia muito para desvendar. Isso e uma missão por cumprir.

A missão a que nos propusemos estava relacionada com o trekking do Selvaggio Blu. Iríamos começar no dia seguinte e esta aventura de barco iria ajudar a resolver um dos maiores desafios em todo o percurso, a escassez de água doce.

A escassez de água, relacionada com o ambiente cársico, juntamente com outros grandes desafios, tornam o Selvaggio Blu um dos trilhos mais difíceis da Europa. Carregar água para seis dias, tanto para consumo como para refeições, juntamente com o material para total autonomia e ainda equipamento de escalada, seria quase impraticável. Então sobravam duas opções: ou optávamos por pagar a uma empresa para nos distribuir água e alimento através de um barco, ou então seríamos nós mesmos a tratar desse processo.

Eu e o Jorge somos duros de roer e não nos queríamos dar por vencidos. Queríamos fazer à nossa maneira e à nossa maneira apenas. Então, optámos pela brilhante ideia de esconder água comida em alguns pontos-chave do troço. Por duzentos euros tínhamos a oportunidade de passar um dia único a ver de uma outra perspetiva aquilo que iríamos fazer nos dias seguintes por terra. A oportunidade de ter uma experiência nova e divertida. E claro, podíamos tornar a aventura ainda mais interessante e à nossa medida, com a segurança de termos alguns pontos de água seguros.

Deambular naquela autoestrada gigante de mar era fácil, mas ancorar uma embarcação daquelas junto às rochas era outra história. Fui vendo através do GPS, qual o ponto de passagem do trilho mais próximo da costa. Ficava imediatamente por cima da Grotta del Fico, uma das grutas mais emblemáticas do Golfo di Orosei, situada ao nível do mar.

Depois de algumas acrobacias, o Jorge conseguiu ancorar o barco junto a umas rochas. Fiquei a guardar a embarcação, não fosse alguma coisa correr mal e deixei-o ir.

Passados uns 20 minutos voltou de bafos para fora. Tinha sido uma bela aventura subir a encosta da falésia até um ponto mais próximo do trilho, tendo deixado o tesouro escondido pela vegetação.

Desatámos a rir! Estávamos orgulhosos de nós próprios. O plano estava a resultar.

O próximo ponto ficava na Cala Mudaloru, uma pequena baía no fundo de uma ravina. Desta vez bastou conduzir o barco até a proa encostar no talude de areia. Fiquei do lado de fora a segurar a embarcação enquanto o Jorge levava o novo reforço de água e comida para o fundo da ravina.

Voltámos para cima do barco como se nada fosse! Não sabíamos até que ponto estaríamos a fazer algo que não devíamos. De uma maneira ou de outra, era melhor não levantar grandes ondas. Desta vez era eu com o papel de comandante do navio pelo que segui para trás do volante e acelerei como se toda a minha vida tivesse feito aquilo.

E lá estava ela, feliz da vida, com os cabelos a ondular ao vento. Não conseguia tirar o sorriso da cara, à medida que cruzava as ondas a grande velocidade. Sentia-me tão viva e genuína. Comos se fosse uma criança a brincar com coisas dos grandes. Foi um momento super divertido e engraçado.

Seguimos ainda mais para sul, passando por mais três belas enseadas, a Cala Mariolu, a Cala Gabbiani e a Spiaggia di Sorgente. Só parei o motor quando chegámos ao largo da mais famosa praia de toda a Sardenha, a Cala Galoritzé. Não há palavras que cheguem para descrever esta praia tão singular. Era a terceira vez que a visitávamos.

E lá estava a impressionante Aguglia, uma agulha de calcário com 150 metros, erguida acima da praia, junto de enormes falésias e de um vale luxurioso. Nem conseguíamos acreditar que já tínhamos estado no seu topo depois de fazermos uma das escaladas mais ícones da Sardenha. E longe de imaginarmos que voltaríamos a ter mais uma história maluca naquele mesmo sítio.

Ficámos à deriva por alguns momentos, absorvidos por aquela imagem. Do mar, ganhava contornos diferentes de quando a vimos do lado de lá, sentados sobre os seixos de calcário espalhados sobre a praia. A imponência das suas falésias refletia-se por toda a parte e a beleza da enseada, banhada por águas transparentes, tornava-a inquestionavelmente uma das praias mais belas do mundo.

A Cala Goloritzé é a última enseada do Golfo di Orosei. Pouco mais à frente encontrava-se o outro extremo da lua crescente. Daí até Santa Maria Navarresse, a próxima localidade, ainda faltariam uns 18 quilómetros de costa selvagem, falésias e pequenas enseadas.

Este era também o limite imposto pela agência turística, pelo que tínhamos acabado de fazer a distância máxima possível, praticamente toda a extensão do golfo.

Ainda faltavam algumas horas para termos de regressar a Cala Gonone. E antes que o sol se esconde-se por detrás das falésias, apressámo-nos no encalço de mais um cantinho do paraíso.

"...Ficámos à deriva por alguns momentos, absorvidos por aquela imagem. A imponência das suas falésias refletia-se por toda a parte e a beleza da enseada, banhada por águas transparentes, tornava-a inquestionavelmente uma das praias mais belas do mundo."

"...O mar é tão cristalino que faz com que os barcos pareçam suspensos no ar. De um lugar mais elevado é possível ver as sombras dos barcos no fundo do leito. Um autêntico espelho de água!"

Apesar de adorarmos Cala Goloritzé, já a conhecíamos bem e iríamos voltar a cruzarmo-nos com ela no Selvaggio Blu, visto que o segundo dia de trekking termina lá. Fiquei radiante de pensar que iria poder aproveitá-la no final de um dia de pura dureza, banhar-me nas suas águas para tirar o suor do corpo e dormir embalada pelo som do rebentar das suas ondas.

Por isso mesmo, decidimos voltar para trás, já a caminho de Cala Gonone. Sempre a fundo, lá fomos rasgando o pano azul profundo. Só quando nos aproximámos da Cala Gabbiani é que abrandámos em direção à costa. Estávamos no sítio ideal para aproveitar o final de uma calorosa tarde de Junho.

Deitámo-nos na areia e abraçámos o sol com os nossos corpos quase nus. Deixámos que nos aquecesse a pele e nos tocasse a alma. O sossego e tranquilidade daquele lugar figuravam o conceito de paz e bem-estar. Parecia não haver mais nada neste mundo. Apenas a simplicidade daquele instante… apenas os elementos e as coisas… apenas água, vento, pedra e sol.

A praia era toda ela feita de pequenos seixos redondos. Pequenos e tão claros. De um tom esbranquiçado a um beije subtil. Tão redondos que se moldavam por completo à forma do nosso corpo. E aqueciam-nos, irradiando de volta a energia que receberam do sol.

E à nossa frente… um mar azul mas tão azul! A água vai alternando de tons, num espectro que deixa os nossos sentidos completamente entorpecidos. Junto à margem, um branco transparente, mudando gradualmente de um azul celeste translúcido até ao mais intenso azul turquesa. Depois vai escurecendo cada vez mais, até se tornar num gigante azul profundo que se escapa até ao horizonte.

O mar é tão cristalino que faz com que os barcos pareçam suspensos no ar. De um lugar mais elevado é possível ver as sombras dos barcos no fundo do leito.  Um autêntico espelho de água!

Fomos mergulhar um sem número de vezes no mediterrâneo. Aproveitámos o lugar e o momento até que se tornou incontornável voltar para devolver o nosso barco. O sol já se tinha escondido atrás das falésias quando deixámos o conforto da praia. Nadei até ao barco, puxei a âncora e liguei o motor. Conduzi até junto da margem, o Jorge subiu e despedimo-nos da pequena baía.

A aventura estava quase a chegar ao fim mas nem isso me fazia perder o enorme sorriso que tinha na cara. À medida que íamos cruzando as ondas a uma certa velocidade, ríamo-nos das nossas peripécias e parvoeiras. Como já é costume, deixámos esticar a corda ao máximo. 

Não queríamos chegar ao destino, queríamos ficar ali só um bocadinho mais. Eu então sou a rainha do “só mais um bocadinho”. Sempre que via um cantinho bonito para mergulhar, desatava em retirada. Mandava-me para dentro de água, nadava perdidinha de todo e voltava a subir alucinadíssima com tanto azul. 

Apesar de já estarmos à sombra e o dia já se fazer sentir tarde, a temperatura estava fantástica e a atmosfera transpirava tons quentes e suaves. Qualquer cantinho azul protegido pelas falésias era um refúgio dos deuses para mais um mergulho. Enternecida pelo final do dia, a paisagem convidava-nos a ficar e a temperatura da água seduzia-me sempre para um fingido último mergulho.

Mas lá teve que haver um que se tornaria o verdadeiro último mergulho. Deixei-me levar pela responsabilidade do mundo desses ditos grandes. Lá bem no interior, ficava ali com o barco e levava-o até ao fim do mundo, não fosse a gasolina a acabar. Sonhar vamos poder sempre!

Restava-me ficar na dianteira do barco, reclinada sobre a cabeceira de borracha e de pernas para o ar. Aproveitar ao máximo os últimos instantes e sentir por mais uns breves momentos aquele pedaço de paraíso. Deixei-me levar ao sabor das ondas rumo a um mundo diferente daquele de onde tinha estado. Na esperança de um dia voltar e com o entusiasmo de seguir de imediato para a próxima aventura, desta vez sobre terra. O Selvaggio Blu!

" ... Restava-me ficar na dianteira do barco, reclinada sobre a cabeceira de borracha e de pernas para o ar. Aproveitar ao máximo os últimos instantes e sentir por mais uns breves momentos aquele pedaço de paraíso."

spiagge di sogno

Golfo di Orosei, Sardegna

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