Neve no alentejo

Pela Serra de São Mamede

" ... Não, desta vez esse Alentejo torna-se numa imagem surreal, tão difícil de idealizar que precisamos tocar na neve fria para sentir ser real... "

Neve no Alentejo?! Sim, não é algo que se veja todos os dias. Na realidade nem todos os anos ou mesmo todas as décadas. E não se trata apenas de alguns floquinhos. Estamos a falar de neve que se acumula o suficiente para cobrir a paisagem de branco. Sim, esse Alentejo de montado e sobreiros, de clima quente e seco. Com temperaturas tantas vezes superiores a 40ºC.

Deixamos de imaginar uma sombra que nos liberta do calor tórrido e a poeira frenética a esvoaçar com a brisa leve que sopra do mar. Um homem de trajes alentejanos com um bocado de palha no canto da boca a sussurrar preces aos quatro ventos. Não, desta vez esse Alentejo torna-se numa imagem surreal, tão difícil de idealizar que precisamos tocar na neve fria para sentir ser real.

A meteorologista cá de casa está sempre de olho vivo para fenómenos que fujam à realidade fatigante. E foi num dos meus turnos como previsora, que esta aventura começou a ganhar os seus contornos. Com uns quantos dias de antecedência, os modelos já mostravam algo bastante intrigante para o dia 9 de Janeiro. A passagem de uma frente oclusa, associada a uma depressão centrada na Península Ibérica, traria a humidade necessária para precipitar. Mas, o que nos chamava verdadeiramente à atenção, eram as temperaturas negativas, previstas para esse dia, a cotas mais baixas do que normal. Como a frente iria passar de este para oeste, a possibilidade de queda de neve seria, em grande parte, prevista para as regiões do interior do país.

Parecia bom demais para ser verdade, no entanto fui criando os meus sonhos e devaneios de ver neve no Alto Alentejo. Com o passar dos dias e o atualizar dos modelos, fui fazendo as minhas previsões e confirmando a queda de neve. Na última noite antes de sábado, dia 9, não restava dúvida de que iria nevar! E lembro-me bem do quão entusiasmada estava antes de adormecer.

Não tínhamos nada propriamente planeado. A situação em que vivemos não nos tem permitido fazer grandes planos, e mantinha-se o estado de emergência. Por essa razão em grande parte, e também porque não havia certezas da quantidade de neve que iria cair, fui adiando o plano de ataque. Tanto a neve como os tempos que vivíamos eram de incerteza.

Mas eu lá acordei no dia prometido. Super alegre e entusiasmada. Ainda na cama, a primeira coisa que fiz foi agarrar no telemóvel e checar o radar e a imagem de satélite. Lá o raio da meteorologista! Não consegui esconder o entusiasmo e, como de costumo, assalto o Jorge com a minha euforia de viver. Já não pensava em mais nada, só queria ir ver a neve!

Decidimos fazer a viagem, conscientes de que poderíamos ser mandados parar pela polícia. E eu só pensava em dizer-lhes a verdade. Ingénua talvez… Mas não nos parecia ser um ato de pura irresponsabilidade. Impera sempre o bom senso claro. E irmos para o meio da natureza sozinhos não me parecia nada comparado com ir para um shopping. Uma mulher que é meteorologista, passa uma semana em pulgas, a prever neve para um lugar onde tão raramente tal acontece, e depois não vai ver com os seus próprios olhos? A Solange profissional queria comprovar o que tinha previsto e a Solange aventureira queria explorar a paisagem pintada de branco.

E o Jorge? Bem, depois de lhe dizer que iria nevar em Castelo de Vide, o local onde tivemos uma prova de Enduro o ano passado, ficou logo convencido. A ideia de podermos andar de bicicleta em trilhos cobertos de neve era demasiado incrível para ceder. Em menos de uma hora aprontámos tudo o que seria preciso para esta aventura de última hora.

Estávamos na A6 a caminho de Portalegre. O céu cinzento acompanhava-nos e os vestígios de algum chuvisco fraco iam aparecendo no para-brisas. As nuvens foram adensando e ficando cada vez mais baixas à medida que caminhávamos para este. Não sabíamos bem o que esperar. Não sabíamos quando iríamos começar a ver nevar, no entanto, imaginava ser apenas em lugares mais altos.

Mas assim que passámos perto de Évora, o Jorge diz estar a ver alguns flocos de neve perdidos no meio dos pingos da chuva. Era preciso estar concentrado para notar a diferença. Mas numa questão de poucos minutos, a quantidade de flocos foi aumentando até estar literalmente a nevar. Eu olhava para o lado e parecia surreal ver a neve cair sobre os eucaliptos à beira da estrada e sobre a planície alentejana. Não estaríamos a mais de 300 metros de altitude.

Fiquei completamente radiante!

Ora nevava, ora chovia, até que nos cruzámos com um cenário diferente. Voltava a nevar com mais intensidade e lá ao longe víamos as muralhas de Estremoz com as colinas cobertas de neve.

" ... Eu olhava para o lado e parecia surreal ver a neve cair sobre os eucaliptos à beira da estrada e sobre a planície alentejana..."

" ... Os tons quentes e alaranjados desse dia de final de Verão davam agora lugar a uma homogeneidade de tons brancos e cinzentos num dia atípico de Inverno."

Deixámos a autoestrada no momento que entrámos em Estremoz. Era a primeira imagem que tínhamos de uma paisagem alentejana coberta de neve.

Metemo-nos pela estrada que liga às muralhas e encostámos o carro na berma, a uma distância suficiente para absorver todo aquela encanto de telhados, muralhas, vinhas e sobreiros cobertos de neve. Nem conseguia acreditar no que estava a ver!

Poucos meses antes encontrava-me no mesmo lugar. Numa pasteleira cor-de-rosa, descia a estrada até onde me encontrava agora. Com uma equipa de filmagem a postos, lançava-me com a bicicleta para a berma de terra. Era a primeira vez que fazia de dupla na área do cinema. Uma experiência tão surreal como aquela que vivia agora. Os tons quentes e alaranjados desse dia de final de Verão davam agora lugar a uma homogeneidade de tons brancos e cinzentos num dia atípico de Inverno.

Um dia com tão poucas horas de luz não nos permitia ficar muito tempo. Queríamos explorar a Serra de São Mamede ainda de dia, pelo que continuámos a nossa viagem. Continuou a nevar nos primeiros quilómetros até que parou e voltou o chuvisco.

Chegámos a Portalegre e a neve voltou. À medida que subíamos em direção à serra, a intensidade do nevão ia aumentando. Já no planalto, tudo se encontrava coberto do manto branco. A uma altitude que rondava os 700 metros, a neve acumulada já se fazia sentir o suficiente para acharmos que estávamos noutro lugar qualquer. A beleza estava em todo o lado, em todo e qualquer detalhe.

Saímos da nacional rumo ao lugar onde iríamos passar aquela noite. A estrada de terra tornou-se imemorável pelo nevão que a condimentava. A pouca fluência de carros tornava possível que a neve se acumulasse sem desaparecer sob o rasto das rodas.

A neve não parava de cair e era agora mais intensa. Saí do carro e deixei que me cobrisse os cabelos. Os muros de pedra carregados de musgo e abafados pela neve. As árvores despidas com apenas algumas folhas secas e alaranjadas. Os troncos de cortiça soterrados de partículas brancas. Uma paisagem calorosamente fria e fétida. Tão encantadora como monótona. Um sonho tão real.

Já tivemos demasiadas circunstâncias na nossa vida para sabermos que as coisas que nos acontecem sem plano são tantas vezes as mais surpreendentes e incríveis.

A vontade de ir, o anseio pelo que nos é desconhecido. É isso que nos faz ir. E nós vamos. Não há muito a pensar. Tantas vezes, o que importa mesmo é seguir a nossa intuição e os nossos desejos e ir… Simplesmente ir.

Foi ainda quando estávamos a caminho na autoestrado que pensamos realmente em passar a noite na Serra de São Mamede. Como não tínhamos material para acampar a solução era óbvia. Arranjar um alojamento local. E mais uma vez é a ação que nos leva a algum lado. Peguei no telemóvel e fiz uma pesquisa rápida. Não demorou muito até fazer uma chamada para o local que me chamou à atenção, a Quinta da Dourada. Imaginei que talvez nem nevasse lá, mas algo me direcionou para ali. Mal liguei para o proprietário, fui recebida com imensa empatia. Foi confirmada a estadia e, quando contei o motivo da nossa visita, o senhor apressou-se em dizer que já nevava ali desde de manhã. Fiquei super híper mega motivada. Não podia ter acertado melhor!

E agora estávamos à porta da singular Quinta da Dourada. E se nevava! Nevava como eu jamais teria imaginado. Nevava tanto que os meus olhos brilhavam de tanta emoção.

"...Nevava como eu jamais teria imaginado. Nevava tanto que os meus olhos brilhavam de tanta emoção..."

"... Um pequeno sonho tornado realidade. Ver nevar de dentro de casa. No quentinho da lareira e no conforto de braços humanos."

Entrámos na Quinta da Dourada e fomos de imediato recebidos. Com amabilidade fomos acompanhados ao nosso alojamento. Eu nem conseguia acreditar no que via…

Sou uma rapariga que aprecia a simplicidade e que ao mesmo tempo também gosta de se deleitar em prazeres mais mundanos. Uma rapariga que tanto pode acampar num local remoto e selvagem e num outro dia, dormir em lençóis suaves de um hotel requintado. Tudo existe para ser apreciado. Não é melhor nem pior. São experiências diferentes e nenhuma poderá ser substituída pela outra. A capacidade de nos conseguirmos moldar ao que temos diante de nós e fazer o melhor dessa experiência é o que muitas vezes distingue o nosso pensamento e a nossa vida. Fui educada a saber dar valor ao mais simples e ao mais elaborado. E agradeço aos meus pais por isso.

Mas, desta vez não nos encontrávamos dentro de uma tenda pequena. Os tecidos de pano davam lugar a paredes resistentes e brancas. O colchão dava lugar a um quarto romantizado pelo ambiente. A cozinha e a sala deixavam de ser a natureza, para serem um espaço merecedor do nosso encanto. E o fecho da entrada da tenda dava lugar a janelas encantadoras, que deixavam passar a beleza da paisagem, mas que guardavam o calor do interior da habitação.

Um pequeno sonho tornado realidade. Ver nevar de dentro de casa. No quentinho da lareira e no conforto de braços humanos. Já vira neve muitas vezes. Nevar muito poucas. Mas ver a neve a cair delicadamente através de uma janela? Isso eu nunca tinha visto.

Apressámo-nos em ir buscar a tralha toda ao carro e trazê-la para a casa. As bicicletas ao relento também tiveram um lugar dentro da casinha. Tudo ficou a postos e ainda era relativamente cedo.

Aproveitámos para comer alguma coisa, calçar as botas de montanha e vestir roupa mais quente. A nossa casinha maravilhava-nos, convidando a uma tardinha quentinha e agradável. Mas o nosso sangue de aventureiros não nos deixava ficar sossegados. Não vale a pena… É uma batalha perdida. Temos mesmo de ir… Ir para a rua que nos continua a chamar.

Antes de irmos para mais longe, circundámos a quinta para nos perdermos nos seus mais belos pormenores. A vista à frente do nosso cantinho era encantadora.

Um pátio de pedra que mergulha numa paisagem de árvores despidas, numa vinha e numa colina de inclinação suave. Imaginava a paisagem verdejante no Verão. Agora, depois de tantas horas a nevar, tudo estava branquinho. Parecia um cenário tirado de uma história como Nárnia.

Ao fundo viam-se umas ovelhas aqui e acolá e ouviam-se os grunhidos de dois cães. Instantes depois, já eu me dirigia na sua direção. Chamava ao longe pelo Jorge, que tentava seguir as pegadas que eu fizera momentos antes, até chegar a mim.

"... Um pátio de pedra que mergulha numa paisagem de árvores despidas, numa vinha e numa colina de inclinação suave... Parecia um cenário tirado de uma história como Nárnia."

"... Um beijo de ternura que desfaz o efeito do frio e um abraço apertado que derrete os cristais de gelo."

Quando chegou ao meu encontro já eu estava de volta dos animais. Acariciava o pelo de um rafeiro alentejano bebé enquanto um outro, mais adulto, começava a mordiscar o mais pequeno tal como os meus braços e pernas.

Tentava afagar o pelo a ambos, mas o mais ciumento queria a minha atenção só para ele e lá começava a algazarra dos dois bichos. Engraçado que os animais partilham tanto das nossas mais puras emoções. Eu ficava preocupada com o cachorrinho mas o Jorge tranquilizava-me dizendo que estavam só a brincar. Mesmo que o mais pequeno tentasse fugir para se deitar sossegado na neve.

E a neve continuava a cair. Nunca tinha visto nada assim. Como o nevão era de fraca intensidade, os pequenos flocos pareciam dançar elegantemente no ar até se sobreporem no chão, nas coisas da natureza ou no meu cabelo, que ficava repleto de grãozinhos brancos.

Deixámo-nos levar pelo momento e pelo lugar. Sorrimos um para o outro e demos as mãos. Um beijo de ternura que desfaz o efeito do frio e um abraço apertado que derrete os cristais de gelo.

Pegámos novamente no carro antes que se tornasse demasiado tarde. A ideia era subirmos até ao topo da Serra de São Mamede. Imaginávamos que a estrada fosse até lá acima mas queríamos andar um pouco a pé. Então, voltámos à estrada de terra batida que nos devolvia à nacional.

Tinham-se passado mais horas, suficientes para inundar cada vez mais a paisagem de neve. Quanto mais subíamos, mais a estrada de alcatrão se escondia sob o manto branco. Não se via quase ninguém. Num cruzamento mais perto do Alto da Serra de São Mamede, foi onde decidimos deixar o carro. Já se começava a tornar complicado circular sem correntes nas rodas, pelo que rimos um para o outro quando dissemos haver uma certa possibilidade de quando chegássemos ao carro não conseguirmos sair dali. O pior das hipóteses era termos de ir a pé até à Quinta. Nada que nos distraísse da ideia de prosseguirmos com o nosso objetivo.

Foi nesse momento de introspeção a dois, que surge a polícia uma dezena de metros mais à frente. Vimo-la mandar parar os carros que tentavam seguir para o Alto da Serra, dizendo-lhes para voltarem para trás, exatamente pela mesma razão que nós discutíamos momentos antes.

E nós? Bem, nós somos do caraças… Eu então, sou do piorio. Sabendo que seríamos os próximos a ser mandados para trás, corremos em retirada. Subimos por uma estrada de pedra a passo largo e nunca mais olhámos para trás.

Rimos às gargalhadas. Sozinhos e envolvidos no silêncio da paisagem branca, estávamos por nossa conta. Como tanto gostamos. Ríamos um para o outro dizendo baboseiras acerca da peripécia.

– Já viste? Este é o nosso primeiro treino para o Evereste! Não vai ser a polícia que nos vai impedir de fazermos esta incrível ascensão a um pico de 1000 metros.

E ríamos desalmados! Com o plano formulado de irmos em Abril fazer o trekking do Campo Base do Evereste (coisa que vai ter de ficar para mais tarde devido ao raio da pandemia), estar ali a subir o ponto mais alto do Alto Alentejo com neve era tão impressionante como irónico.

" Já viste? Este é o nosso primeiro treino para o Evereste! Não vai ser a polícia que nos vai impedir de fazermos esta incrível ascensão a um pico de 1000 metros."

"... Eu fingia que entrevistava o Jorge e dizíamos disparates. Subimos para cima do marco geodésico e levámos uma surra do vendaval que soprava no seu topo."

Checámos o GPS só para sabermos por onde nos devíamos dirigir e seguimos em frente. Seria uma caminhada de três quilómetros, mais coisa menos coisa. O caminho foi completamente inventado. A subir para treinar o pulmão que é o que precisávamos.

Fizemos um caminho mais direto ao subirmos pela encosta onde passavam os postes elétricos que levavam energia para os radares no topo da serra. Apesar de curta, a caminhada até teve o seu desafio, acautelado pela combinação da inclinação com a dificuldade de progressão em terreno duro e nevado. O ambiente era carregado de misticidade, visto estarmos dentro de nevoeiro.

Chegámos ao Alto da Serra. O frio já se fazia sentir tal como o vento. E o dia também já se fazia notar tarde. Só faltava mesmo chegar ao ponto mais alto, onde se encontrava o marco geodésico.

– Onde treinaram para o Evereste? – brincava o Jorge

– Bem, nós treinamos na Serra de São Mamede – respondia eu com ironia e ousadia

Esperneávamos de tanto rir. Imaginávamos a malta a fazer-nos perguntas e nós a responder com esta conquista. Os outros não conhecendo poderiam achar que estávamos a falar de uma grande montanha, jamais imaginando a pequenez desta serra quando comparada com qualquer cordilheira da Europa, quanto mais os próprios Himalaias.

Eu fingia que entrevistava o Jorge e dizíamos disparates. Subimos para cima do marco geodésico e levámos uma surra do vendaval que soprava no seu topo.

Estava mais do que na hora de voltar para o carro. Sabíamos que nos restava pouco mais de quarenta minutos de luz. Então, caminhámos de mãos dadas ao longo do caminho que descia das antenas até à nacional mais abaixo.

Este era o ponto mais alto de todo o Alto Alentejo. E era, sem dúvida, o lugar onde se tinha acumulado mais neve. Já nevava pouco, no entanto continuávamos dentro de nuvens, pelo que a paisagem à nossa volta era dominada pelos mesmos tons claros, brancos e cinzentos.

À medida que descíamos entretidos pelos nossos próprios passos na neve, víamos a beleza que esta oferecia a todos os elementos à nossa volta. Às árvores e às rochas. Aos arbustos e às pedras.

Mais abaixo, um túnel criado pelas árvores que se encontravam de ambos os lados. Magnífico! Olhávamos para dentro da floresta de pinheiros bravos à nossa direita e para o caminho branco que desaparecia uns metros mais à frente, envolvido pelo nevoeiro.

Mais à frente, vimos um trilho entrar pela floresta e fomos atrás dele. Corremos como crianças. Desajeitados e alegres. Tropeçávamos no que a neve escondia e continuávamos a saltitar por ali fora. De vez em quando caiam uns grãos de neve. Caiam tão devagar que pareciam pairar no ar. E ao longe, as nuvens deixavam escapar o retrato da paisagem envolvente.

– Trilho do Javali. Humm tem ar de ser um trilho de bicicleta.

A placa de madeira assinalava um possível percurso de BTT. Seguimos por ele e fluímos ao longo das suas curvas e contra curvas. As nossas pernas eram agora a nossa bicicleta, que nos faziam viajar. E o lugar, esse quase já na penumbra, era de uma beleza petrificante.

No meio de tanta invenção lá chegámos ao carro. Já era praticamente de noite. As janelas e a chapa do carro já se encontravam sob uma camada de gelo esbranquiçado. As portas abriram a custo mas o carro lá pegou e desceu a estrada rumo à Quinta da Dourada.

" ... Seguimos por ele e fluímos ao longo das suas curvas e contra curvas. As nossas pernas eram agora a nossa bicicleta, que nos faziam viajar ..."

"... Brindámos com os nossos copos carregados de vinho verde. À nossa aventura, à nossa paixão, à vida que adoramos viver. À criancice que há em nós e à meninice que nos faz brilhar. Aos sonhos e às conquistas. Aos devaneios e às maluqueiras."

A luz do dia deu lugar à escuridão intrigante da noite. Mas a beleza de todas as coisas mantinha-se uma constante. Os lugares pareciam adormecidos. A sua monotonia era quebrada pelos poucos grãos de neve que ainda caiam do céu.

Chegámos à Quinta da Dourada. Ao conforto de um serão bem passado.

Tomamos um banho quente, acendemos a lareira e preparámos o jantar. Um quebrar da agitação do dia que tivemos. Jantámos e sentamo-nos confortavelmente no sofá, aninhados pelas mantas, pelo calor das chamas e pelo amor que nutrimos um pelo outro.

Brindámos com os nossos copos carregados de vinho verde. À nossa aventura, à nossa paixão, à vida que adoramos viver. À criancice que há em nós e à meninice que nos faz brilhar. Aos sonhos e às conquistas. Aos devaneios e às maluqueiras. A nós e aos nossos.

As janelas abertas davam para um lugar diferente. Carregado de mistério e beleza visceral.

Vim à rua. Queria ver pela última vez a réstia daquele sonho. Olhava para o céu escuro e via uns grãozinhos de neve a cair. Tão pequenos e a cair tão lentamente. Pareciam cair do nada. Como se alguém, lá do alto, estivesse a apimentar o mundo, como se de uma receita se tratasse.

O frio da noite congelou a neve caída nas superfícies. E como brilhavam!

O silêncio da noite, a luz quente a escapar das janelas, o frio seco que me afagava o rosto e a pureza da neve que se encontrava à minha volta. É a última coisa de que me lembro. Antes de voltar para dentro de casa. Antes de adormecer nos braços de quem amo.

serra de são mamede

Alto Alentejo, Portugal

também em por cá

1 Comment

  1. Graça Domingues

    Tudo tão bonito 😍 parece tirado dum filme, as fotos estão incríveis, não é necessário ter muito para sermos felizes, sabermos saborear o que a natureza nos dá é uma grande riqueza fico feliz por seres feliz e saberes tirar partido do belo, parabéns aos dois, continuem assim, sejam felizes sempre.

    Reply

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

four × five =

EnglishPortuguese