Rota Vicentina

Caminho histórico - Parte IV

" ... Sentia que era um tropeçar constante em momentos e pessoas que não paravam de se cruzar no meu caminho! "

Acordei de manhãzinha com uma alegria e energia contagiantes. Ainda deitada sobre os lençóis, vagueava pelas memórias do dia anterior, que agora me soava como se de um sonho se tratasse… O meu coração estava cheio e eu sentia-me super emocionada por tudo o que me estava a acontecer! Sentia que era um tropeçar constante em momentos e pessoas que não paravam de se cruzar no meu caminho! Podia viver assim para sempre… a vaguear pelos caminhos do mundo… e nunca mais parar. Acabava os dias exausta… não por me doerem as pernas ou os braços, mas sim pela constante emoção que sentia a todo o momento.

A noite anterior podia ter terminado num ápice se me tivesse recostado para finalmente descansar. Acabou por não ser o que aconteceu! Ao invés, estive a conviver com a dona da quintinha, Supryia, e a sua amiga, Caro Steffens, ambas alemâs! No restaurante ali pertinho, o Museu Batata Doce comi um dos melhores pedaços de carne da minha vida! Porco preto yumiiiiii!!! Foi por pouco tempo que desfrutei silenciosamente a minha deliciosa refeição… não tardava nada já andava a beber shots seguidos de licor de medronho que ia sendo “convidada” a saborear, e a tagarelar com o Paulo Águas, dono do restaurante, o Vítor, dono de um alojamento rural e conservacionista da natureza, e o João Bernardo, Capitão de mar e guerra da Marinha. Ficamos noite dentro a discutir assuntos e a recontar histórias uns aos outros! Conversamos sobre o futuro da Costa Vicentina e da preocupação inerente ao equilíbrio entre o turismo e sustentabilidade de habitats e falei com o João sobre diversas questões associadas à carreira e vida militar.

Voltei à Quintinha Mojud e o serão continuou por ali. Tinha ficado a dormir ao lado da Caro, uma das pessoas mais interessantes, queridas e inspiradoras que já conheci! É incrível conhecer alguém com uma alma tão jovem apesar da sua idade bonita. Despedimos-nos com um “Pink panda plane dreams” para brincar com o facto de ela ter medo de andar de avião. Fechei os olhos e deixei-me ir.

Agora voltamos ao meu quinto e penúltimo dia! Tive uma manhã fantástica e apesar de saber que já deveria estar de volta ao pedal, fiquei ali porque me sentia tão bem. Era assim que me fazia sentido. Nestas aventuras e um pouco por toda a minha vida, gosto de me deixar levar pelo que acontece. Não forço nada nem contrario o que se vai passando à minha volta. Confio no que o tempo me traz, nas circunstâncias e nas coincidências… quem sabe até aquilo a quem alguns chamam destino.

Eu e a Caro ficamos entretidas à conversa no quarto… fiquei fascinada com as suas histórias e loucuras de outros tempos. Contou-me memórias e pensamentos do seu eu mais profundo e eu falei-lhe de coisas que nem com amigos de longa data o fizera… Era surreal a confiança e a empatia que sentia por aquela figura quase mágica… Sempre tinha acontecido conhecer pessoas impressionantes em viagens, no entanto, ela marcou-me pelo seu espírito quase transcendente, passando para mim uma energia e alegria contagiantes.

Fomos de encontro à Supryia, que já tinha preparado um pequeno-almoço digno de deuses, cheio de coisas boas e naturais! Mais um momento fabuloso com as duas amigas! O tempo voava e eu não conseguia sair dali! Viemos para a rua… um sol lindo no meio de um céu absolutamente azul! A casinha tipicamente alentejana, onde também vive a Supryia, está decorada de tons quentes e amenos no seu interior e com uma decoração que transborda tranquilidade e pacificidade. Mas é o exterior que nos faz querer ficar ainda mais! Varandinhas térreas à frente dos quartos com mesinhas redondas e cadeiras rústicas. Um alpendre de madeira com uma enorme mesa, perfeita para longos serões em noites de verão. E um pátio relvado, onde as árvores fazem sombra a cadeiras de jardim e a uma colorida cama de rede. O lugar perfeito para relaxar!

Brincámos na rua com o Giacomo e o Jammu, os residentes caninos da Quintinha Mojud, e rimos… rimos tanto! Estava tão feliz e grata por tudo o que me estava a acontecer! Toda esta viagem parecia um sonho do qual não queria acordar. Despedi-me com abraços apertados e promessas de nos voltarmos a encontrar outro dia. E de bicicleta à mão, passei o portão rumo a um novo mundo!

"Confio no que o tempo me traz, nas circunstâncias e nas coincidências... quem sabe até aquilo a quem alguns chamam destino..."

" ...Os pinheiros lembram-me que estou tão perto da costa e o cheiro que emanam recorda-me dos piqueniques em família no pinhal de Leiria."

Não foi preciso pedalar muito mais para perceber que algo não estava certo… Um furo! Devia ter sido um pequeno já do dia anterior e que esvaziara vagarosamente durante a noite. Bolas, e logo agora que já não era nada cedo para iniciar um dia com tantos quilómetros pela frente.

Sem outro remédio, parei nas bombas mais à frente e remendei o pneu logo ali.

Num ápice estava pronto. Saltei para a bicicleta e deixei Rogil para trás.

Estava no planalto litoral, onde continuei a pedalar por um trilho junto a um canal de rega do rio Mira. Este canal traz água em abundância desde a Barragem de Santa Clara, situada mais no interior. Com a levada por companhia, atravessei campos agrícolas com batata-doce, milho, amendoim e tomate, intercalados por manchas de pinhal e eucaliptal. Aqui a vista é desafogada, com as serras a nascente e o Atlântico a poente. Os pinheiros lembram-me que estou perto da costa e o cheiro que emanam recorda-me dos piqueniques em família no pinhal de Leiria. Gostei imenso deste lugar de cores vivas, de vegetação rasteira com estevas em flor, e com um rasto de areia ao longo do trilho.

Pouco depois de virar à esquerda, voltei a dirigir-me ao interior até entrar numa longa e divertida descida ao longo de um pinhal. Esta levou-me até ao vale da ribeira de Aljezur, vale esse que serpentei em direção ao oeste, até à praia da Amoreira. Logo após ter atravessado a ponte sobre o rio, parei para mais uns sorrisos e conversas de ciclista para ciclista.

Da pequena ponte sobre a ribeira até à vila de Aljezur foi um pequeno instante.

Uma estreita rua em calçada levou-me por dentro do centro histórico até à ponte que atravessa novamente a ribeira de Aljezur. Do meio da ponte temos a melhor vista sobre a vila antiga, com as suas casinhas dispostas em anfiteatro ao longo da colina, e no seu topo, as muralhas do castelo com a bandeira de Portugal a ondular ao sabor do vento. De facto, o Castelo de Aljezur pertence a um dos sete castelos representados na nossa bandeira.

Passei para o outro lado do rio até ao largo do Mercado e daí atravessei a planície até à parte nova da vila. Daqui podemos contemplar os solos planos e férteis das várzeas, onde se cultiva a famosa batata-doce de Aljezur. Este vale foi outrora navegável, constituindo o único porto de abrigo da costa escarpada entre Vila Nova de Mil fontes e Sagres.

Segui enganada até à Igreja no interior da vila, vila esta que parecia uma ilha de tons claros no meio de um oceano representado pela planície. E sim, estava a seguir as marcas que agora sei pertencerem a outros trilhos.  Foi só quando comecei a vaguear de um lado para o outro que percebi que não estava no caminho certo. Voltei para trás e refiz toda a estrada até voltar a cruzar pela terceira e última vez, a ribeira de Aljezur.

Hoje sei que ter-me desencontrado do caminho certo teve uma razão! Era o destino! Se não fosse por isso, nunca tinha passado por uma das mais fantásticas histórias da minha Rota Vicentina… a história da branca de neve e os sete anões!

"Do meio da ponte temos a melhor vista sobre a vila antiga com as suas casinhas dispostas em anfiteatro ao longo da colina, e no seu topo, as muralhas do castelo..."

" Ter atravessado aquela ponte foi como o virar da página de um livro rumo a um novo capítulo."

Ter atravessado aquela ponte foi como o virar da página de um livro rumo a um novo capítulo. Um dos capítulos mais inesperados e bonitos da minha história por terras alentejanas.

Foi tudo tão rápido e natural que já nem recordo ao certo quem interpelou quem. Só sei que de repente estava no meio de sete jovens ciclistas, a maioria nos seus belíssimos cinquenta anos. Eu, meio atordoada pela aflição de o dia já ir tarde e por me ter enganado no caminho, e eles, curiosos por verem aquela rapariga de mochila às costas com uma aventura tão grande quanto o seu sonho, ficámos ali, sobre a calçada do passeio, a falar com o rio e as bicicletas como testemunhas.

A sua natural descontracção e a maneira engraçada como interagiam uns com os outros deixaram-me super entusiasmada. De repente já nem queria saber se era tarde ou se conseguiria chegar a horas. Só me interessava viver aquele preciso momento. Poder viver uma nova história dentro da Hist´ória! E coincidência das coincidências,… não é que a nosso rumo era o mesmo, a Carrapateira, e mais… o lugar onde iríamos ficar hospedados era também o mesmo!! Não poderia estar mais certa que o resto do meu caminho ia ser partilhado não com um, mas sete gloriosos!

Quando dei por mim já entrava porta adentro do restaurante III Geração, logo do outro lado da rua… Pensava eu já ser tarde e mal sabia que ainda ia ficar ali um bom bocado. Desta vez não ia ser uma paragem no meio do campo para trincar uma sandes de atum… hoje ia comer sentada à mesa, de faca e garfo, a saborear comidas conterrâneas com umas goladas de cerveja pelo meio, à medida que ia falando e rindo quase sem fôlego! Senti-me orgulhosa de quem sou, do que tinha feito até ali e do que me movia para continuar. Orgulhava-me de tudo isso à medida que o partilhava com eles.

Finalmente de volta à rua, pedalámos juntos colina acima, pelas ruas íngremes da calçada. Contornámos as muralhas do Castelo, de onde se avista por uma última vez os solos planos e férteis das várzias e a Vila de Aljezur.

Ao longo da estrada que desce do Castelo rumo ao sudoeste, ainda podemos espreitar, por entre as clareiras dos eucaliptos, o vale da ribeira de Aljezur que se estende até à costa, desaguando as suas águas na praia.

Parámos para pôr óleo na corrente da minha bicicleta, que já ia dando sinais de emperro à medida que punha e tirava mudanças. Foi a única coisa que me esqueci de levar e no entanto, ali estavam eles, no momento certo para me ajudar. Estava tão ressequida que depois de oleada parecia voar! Sentia-me ágil e veloz, e mesmo com uma bicicleta longe dos padrões das dos meus companheiros, nunca me deixou ficar atrás. Estávamos uma para a outra, a bicicleta era o complemento do meu corpo e eu era a sua alma. Éramos agora um ser só!

Seguíamos todos o líder, ou como lhe chamam “O paizinho”, o Apolinário. Era ele que coordenava o trajeto a seguir até Sagres, por meio de estradas de alcatrão e terra batida, que conectava ao longo do caminho. Fui-me apercebendo que se encontrávamos fora da rota vicentina. Quando finalmente parei para checar o mapa, já tinha falhado o trajecto que seguia para a praia do Canal. Fiquei um pouco desanimada mas também estava consciente de que possivelmente até tinha sido o melhor dadas as horas tardias. Como o trajecto se voltava a cruzar com o nosso mais a sul, decidi avançar até lá. Expliquei a importância daquele caminho para mim e que de outra forma teria de os deixar.

Reuniram-se como na história dos sete anões, e no meio do estradão lá se pronunciaram e decidiram sobre a Branca de Neve. Fiquei radiante quando disseram que iam junto comigo, no meu caminho!

A partir daqui foi uma odisseia de descoberta… do caminho, do Alentejo, e dos meus incríveis companheiros que me escoltaram até ao mar. Daqui nasceu uma das mais fantásticas e improváveis amizades da minha vida!

"...Reuniram-se como na história dos sete anões, e no meio do estradão lá se pronunciaram e decidiram sobre a Branca de Neve."

" Não é o mundo tão espectacular? A imprevisibilidade do quanto as coisas podem mudar num simples virar da esquina?! "

Apolinário Martins, Emanuel Formiga, Agostinho Fernandes, António Amador, José Santos, Paulo Pereira e Paulo Gouveia. Estes são os nomes dos sete fantásticos! Dava sem dúvida para um filme daqueles de Western! Cada um com o seu feitio, com a sua virtude e característica caricata!

Tive a oportunidade de ir conhecendo um pouco de cada à medida que pedalávamos por montes e vales. Um verdadeiro teste à minha resistência pulmonar, já que fosse a subir ou a descer, lá ia eu papagueando a todo o tempo. Tentava mas nem chegava aos calcanhares do Agostinho, intitulado e mesmo a propósito, o “dois pulmões”. Fosse que subida fosse, o homem ia a falar o tempo todo como se tivesse instalado numa espreguiçadeira.

Confesso que quando me tento recordar do que vi pelo caminho só consigo ter alguns escassos vislumbres. Não que isso seja coisa má. Pelo contrário… Simplesmente ia tão entretida que foi isso que a minha memória gravou. Não é o mundo tão espectacular? A imprevisibilidade do quanto as coisas podem mudar num simples virar da esquina?! É isto que me faz querer viajar, que me deixa empolgada só de me imaginar a fazê-lo.

Acabaram os sobe e desce quando chegámos ao vale onde se encontra a ribeira da Bordeira. Daqui seguimos tranquilamente ao longo de uma estrada de terra batida, junto de um curso de água, até à aldeia cujo nome lhe pediu emprestado. Parámos num cafézinho para petiscar e beber mais umas cervejas. A vida sabia tão bem!  Sem pressas e preocupações, era simplesmente aquilo que é. Era simplesmente aquilo que queríamos que fosse e aquilo que queríamos ser.

Não sei o que me faz querer pertencer a cada aldeiazinha que passo, mas o que sinto faz-me querer ficar. Talvez seja pelo ritmo desafogado com que a aldeia respira ou o encanto rústico da sua solidão envolta na natureza. A sua fragilidade e autenticidade despertam-me sentimentos nostálgicos à medida que vou pedalando pela calçada.

Deixámos a aldeia branca para voltarmos ao verde dos montes. Sentia-me feliz por partilhar o caminho, sentia-me a pertencer a algo. Sentia-me uma parte da equipa. Como se já os conhecera de há largos anos. Estava repleta de energia e deixava-a fluir em redor dos meus amigos.

Depois de uma última subida numa paisagem idílica de estevas, aroeiras e sobreiras, chegámos ao ponto mais alto, o Cerro da Cunca. E ali estava mesmo à nossa frente, o mar, outrora tão pertinho mas camuflado pelos montes. Dali espreitava-mos uma vista soberba sobre as dunas da praia da Bordeira e a ribeira que ali desagua.

Descemos até à estrada nacional e dali foi um instante até à vila da Carrapateira e finalmente até ao Hostel do Mar, onde fomos tão bem recebidos. Soube-me a ouro tomar um bom banho e vestir uma roupa confortável. Depois dos sete… aliás oito, estarem todos prontos, seguimos a pé vila fora em direcção à praia da Bordeira.

Uma ligeira brisa fazia-se sentir naquele final de dia. Nem estava frio nem calor. Estava num estado puro de balanço, tal e qual como eu. Encontrava-me verdadeiramente no momento, de corpo e alma. Conversámos caminho afora até ao restaurante. À mesa, rimos, comemos, festejámos e brindámos à nossa amizade. Foi mais um momento mágico onde me senti genuinamente acarinhada e mimada por estes sete extraordinários bons rapazes.

"...A sua fragilidade e autenticidade despertam-me sentimentos nostálgicos à medida que vou pedalando pela calçada."

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Alentejo, Portugal

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