Rota Vicentina

Caminho histórico - Parte V

"...O caminho, todo ele, era uma descoberta do mundo e de mim própria, das gentes e das coisas."

Existe uma certa nostalgia na manhã do dia que sabemos ser o último. Um sentimento profundo, impossível de passar despercebido e que vai fazer sempre parte daquilo que sabemos ser uma viagem, seja ela qual for.

Até ali as manhãs eram despertadas em euforia, num compasso rápido de quem quer viver muito e tudo de uma só vez. Mas hoje era diferente, o ritmo abrandou e tudo foi feito numa espécie de ritual.

Viver daquela forma já se tinha tornado um hábito, um que poderia perpetuar por meses, quiçá anos. A felicidade era pura e a simplicidade de viver apenas com uma mochila de 22 litros era incrível. Todos os dias, a única certeza que tinha era o da própria incerteza. O caminho, todo ele, era uma descoberta do mundo e de mim própria, das gentes e das coisas.

Já tinha tomado a decisão de “deixar” os meus companheiros neste dia. Não que me negasse à sua maravilhosa companhia, mas porque o meu coração me pedia para voltar ao meu mundo de emoções e sentimentos. Tinha começado sozinha e ia acabar sozinha.

Tomámos o pequeno-almoço juntos… vagarosamente… ninguém tinha pressa de chegar ao destino hoje. Penso que todos sentimos uma certa tristeza naquele momento. Um dia consegue ser mais intenso e forte que anos de amizade. E foi isso que senti, como se os conhecera há largos anos!

Um burburinho de agitação… estava na hora, tínhamos de partir! Eu para o Cabo de São Vicente e eles para Sagres. Uma última surpresa! Tentei guardar as lágrimas quando me deram uma jersey do “Sever do Vouga Team“. Não queria acreditar naquele gesto tão carinhoso e que me fez sentir tão especial. Estava assinada de cima a baixo com os seus nomes. Vesti-a orgulhosamente! Iria terminar a minha aventura com ela! E sem mais demoras abracei-os com força e deixei-os partir.

Recordo perfeitamente do misto de emoções que senti ao ver os meus amigos partirem. Alguns ainda olharam para trás e acenaram alegres. Outros deixaram-se levar pelo sentimento de perda de um elemento diferente e especial. Senti uma alegria imensa e uma tristeza avassaladora! Senti orgulho de terminar aquilo a que me propusera, e ao mesmo tempo um certo pesar por decidir fazê-lo sozinha. A vida nunca é um caminho a direito nem é só uma única sensação ou emoção. É uma mescla de sabores e cores! Às vezes nem conseguimos saber ao certo o que realmente estamos a sentir, muito menos entendê-lo. Simplesmente sentimos e deixamos as coisas acontecer.

Terminei o que ainda tinha a fazer e fui buscar a bicicleta ao pequeno armazém. “Aqueles sacanas”, pensei! Mal lhe pus os olhos em cima, reparei que tinham posto óleo na corrente antes de partirem. Este pequeno gesto demonstrou um profundo sentimento de carinho e até mesmo um sentido de proteção. Era mesmo uma menina muito sortuda!

Do largo da Carrapateira segui uma vez mais em direção ao interior. Não foi preciso subir muito para começar a ter uma vista desafogada sobre o mar, com a pequena vila de casas brancas a ficarem cada vez mais ao fundo. Umas centenas de metros adiante e encontro um marco geodésico que assinala o ponto mais alto do planalto. A vista perfeita sobre o mar, cujo azul profundo contrasta harmoniosamente com o azul bebé do céu, o areal e as dunas da praia da Bordeira, a vila e os montes arredondados que se sucedem até à costa.

"... A vida nunca é um caminho a direito nem é só uma única sensação ou emoção. É uma mescla de sabores e cores! "

" ... Afinal este era o Caminho Histórico, aquele que se perde e encontra nas terras do interior..."

Despedi-me do mar sabendo que não tardaria a vê-lo horas mais tarde. Afinal este era o Caminho Histórico, aquele que se perde e encontra nas terras do interior. E existe algo de profundo que me atrai para estas paragens. Não sei se são os aromas, as cores ou as formas, ora suaves ora abruptas, dos vales e dos montes. Mas sei que há algo que me encanta neste lugar. Adoro o mar mas era no interior que sentia a verdadeira alma vibrar!

Larguei o lindíssimo planalto coberto de tojo amarelo, um tipo de arbusto que explode de vida nesta altura do ano, e desci para o vale onde se encontra a ribeira da Carrapateira que desagua na praia da Bordeira. Pedalei por um caminho de terra que segue paralelo à ribeira, passei ao lado da aldeia de Vilarinha e foi então que tive de atravessar a ribeira da Carrapateira por quatro vezes seguidas. Como tinha chovido bastante na semana anterior, o caudal ainda obrigava a algumas peripécias.

O caminho era literalmente interrompido pela ribeira, mas em vez de um transtorno, aqueles que por ali passavam, e tal como eu, só viam um momento de diversão. Se nas outras passagens ainda conseguia ir em cima da minha valente bicicleta, nesta tive mesmo de saltar fora e carregá-la nos meus braços. As pessoas riam-se e eu sorria de volta. Depois de mim seguiram-se quatro mulheres britânicas, de água a dar pelos joelhos, bastões a postos e botas de caminhada atadas à frente da mochila. Há que grandes mulheres! Ainda conversamos um pouco do lado de cá da margem até que voltei a seguir o meu caminho.

Ao cruzar pela última vez a ribeira da Carrapateira é também quando começei a acompanhar o seu afluente, a ribeira da Sinceira, agora em direção ao sul!

O vale torna-se mais estreito e mais selvagem também, com a tamargueira, o salgueiro, o freixo e o carvalho português, junto às margens da ribeira. Nas encostas mais íngremes podemos contemplar vegetação natural, praticamente intocada pelo Homem. Nesse denso matagal abundam o medronheiro, a urze branca, o queiró, o folhado, a esteva, o trovisco, a aroeira, o lentisco e o tojo. Uma explosão de tons, texturas e aromas…

Voltei a atravessar a ribeira por mais duas vezes, desta as últimas! E eu não me ralava nem um bocadinho, pelo contrário, ficava tão contente por poder mergulhar os pés na água fresca.

A base do vale enche-se de vida com os prados verdejantes, repletos de pequenas flores de todas as cores. É mesmo Primavera! Senti-me tão sortuda por toda aquela exibição esplendorosa! Só me apetecia ficar ali deitada ao sol durante horas, a absorver o perfume emanado de cada uma das flores. Sem dúvida um dos sítios mais encantadores de toda a Rota Vicentina, não pela espectacularidade do lugar mas sim pela simplicidade harmoniosa que ali existe.

E foi pouco depois de passar ao lado de uns cavalos e burros, gentis e amistosos, que surgiu a pequeníssima aldeia de Pedralva, onde parei para almoçar, e desta vez na companhia das duas raparigas francesas com quem tinha partilhado o Hostel do Mar na noite anterior.

"A base do vale enche-se de vida com os prados verdejantes, repletos de pequenas flores de todas as cores. É mesmo Primavera!"

" ... apercebo-me de imediato da proximidade do mar, não fosse o cheiro forte a maresia e a pinheiro marítimo. Estava de volta ao planalto litoral! "

Continuei a seguir para sul através do vale, passando ao lado de algumas casas, hortas, pomares e zonas de pastoreio, até que finalmente deixei a ribeira e curvei rumo ao litoral. A subida que se segue transporta-nos uma vez mais para um mundo de fantasia, com montes e vales a perder de vista! Todos eles incrivelmente verdejantes e repletos de flores!

Um lago de tamanho considerável aparece logo ao início da subida. Quando o observava, tive a grande fortuna de poder encontrar ali um aglomerado de nenúfares como nunca tinha visto antes. Estavam num estado perfeito e saudável, e continham várias flores de lótus cor-de-rosa que flutuavam delicadamente sobre a água.

No topo da subida apercebo-me de imediato da proximidade do mar, não fosse o cheiro forte a maresia e a pinheiro marítimo. Estava de volta ao planalto litoral! Atravessei a nacional que corre rapidamente até Vila do Bispo e embrenhei-me num trilho que descia logo do outro lado da estrada. Que surpresa fantástica! Este seria sem dúvida o trilho mais divertido do Caminho Histórico! É feito ao longo de um vale estreito e muito bem preservado, onde reinam os medronheiros e outras espécies locais. Não havia maneira nenhuma de passar por ali senão pelo próprio trilho, tal não era a riqueza da vegetação, que tornava impossível embrenharmo-nos nela.

O trilho curvou elegantemente até que voltou a fazer-me subir, devolvendo-me ao planalto.

Podia ver o mar pelos rebordos mais baixos dos montes no horizonte. Sabia que dali até à pontinha do Algarve seria um piscar de olhos e por isso continuei sem grande pressa, ao longo do largo caminho. Esta região é marcada por um terreno arenoso, rodeado de pinheiros bravos e mansos, e por mato rasteiro. Todo o encanto de uma genuína paisagem litoral.

É também aqui que podemos encontrar alguns charcos temporários (secam no Verão), um habitat prioritário de conservação por constituir um tipo de ambiente com uma flora e fauna muito originais.  São talvez o habitat mais rico em biodiversidade do Sudoeste de Portugal, fundamental para a reprodução da maior parte dos anfíbios da nossa fauna. A espécie mais emblemática é a Triops vicentinus, um camarão girino com 70 pares de patas e 3 olhos, endémico desta região. Pode considerar-se um fóssil vivo, pois é contemporâneo dos dinossauros e tem-se mantido quase sem alterações há quase 200 milhões de anos! Do Outono à Primavera, para além dos milhares de girinos, os charcos são povoados por aves, cágados, mamíferos e plantas. Em Abril e Maio, as flores oferecem uma paleta de cores: miosótis azuis, narcisos amarelos, jacintos lilases, orquídeas roxas, malmequeres brancos… Porém, no Verão, esta ilha de diversidade entra em estivação, oferecendo um aspecto desértico e desolado a quem a visita.

Continuei rumo ao Sul, até chegar à estrada nacional, onde pedalei por poucas centenas de metros até voltar a reentrar num caminho paralelo à mesma. O planalto vai-se tornando cada vez mais desprovido de vegetação, no entanto este não deixa de ser encantador pela vastidão que apresenta! Nesta altura do ano o campo mantém-se verdejante e os aglomerados de tojo amarelo espalham-se pomposamente até ao horizonte.

Quando o terreno começa a descer suavemente, avisto pela primeira vez o mar da costa sul algarvia! E ali está ela, a Vila do Bispo, e todo o planalto que me falta percorrer até ao Cabo de São Vicente! Estou tão perto que quase lhe posso tocar… e a emoção começa a tomar conta de mim. Uma parte quer continuar até ao destino, a outra só queria voltar a perder-se no coração do interior outra vez.

"... Uma parte quer continuar até ao destino, a outra só queria voltar a perder-se no coração do interior outra vez."

"...O céu estava solidário comigo, ambos estávamos a segurar as lágrimas."

Passei rapidamente por Vila do Bispo, e rumei para oeste ao longo de uma paisagem dominada por campos de cultivo. A solidão deste lugar faz-se sentir pelo silêncio que me acompanha.

Mais à frente viro à esquerda, tomando o meu último rumo de viagem, o Sul! Parecia ter mudado a página de um livro, ao ver o tempo mudar num sobressalto. Fui pedalando ao longo do dia com um céu azul, preenchido apenas por alguns cúmulos, um tipo de nuvem que faz lembrar bocadinhos de algodão. Esses cúmulos foram-se acumulando, e agora o céu tornava-se num manto cinzento escuro. Não tinha visto a previsão para este dia, nem precisava dela para saber que pouco faltaria para começar a chover. O céu estava solidário comigo, ambos estávamos a segurar as lágrimas.

Não foi por isso que aumentei o ritmo, até porque eu me fui deixando fascinar pelo horizonte negro para o qual  me encaminhava. Esse cinzento negro contrastava graciosamente com o verde vivo dos prados, onde as cores alegres dos tojos-do-sul, das urzes, dos cardos, das estevas, do alecrim, das violetas, dos tomilhos e dos jacintos se faziam notar. Aqui os matos demonstram claramente a influência dos ventos fortes, com a vegetação arbustiva quase inexistente e um panorama dominado por vegetação rasteira.

Faltavam pouco mais de oito quilómetros para chegar ao fim, quando se cruzam por mim dois homens de bicicleta de montanha. Parecia que afinal de contas não ia terminar esta aventura sozinha. Se o destino se encarregou de tal, pois assim seria! Começámos a pedalar lado a lado e aos poucos foram aparecendo mais elementos pelo caminho. Tratava-se de um grupo de BTT, os “Rota da Rolha“, nome sugestivo do petisco quem sabe! Oito “bons rapazes” que me acompanharam nos últimos momentos desta minha grande aventura.

Olhando agora para trás, acredito que foi melhor para mim ter feito os últimos quilómetros em companhia. Tinha pedalado até ali ao meu próprio ritmo, dentro do meu mundo de emoções e sentimentos, e agora estava na altura de acordar para outra realidade. Estava no momento de exaltar tudo o que tinha vivido até ali e partilhar a vitória na derradeira meta.

Sozinha, teria vagueado pelo planalto, tentando adiar continuamente aquele que seria o seu inevitável fim. Acho que como um pouco em tudo na vida, sempre me debati no momento de deixar aquilo que me marca. Não é propriamente uma resistência à mudança, visto ser esta o motivo porque parto, mas sim uma relutância em sair de um estado que me trouxe tanta paz, clareza e felicidade. Sair de um estado de emoção, entusiasmo e paixão, que já se tinha tornado numa rotina. E acima de tudo é o “deixar” a simplicidade da vida, onde não existe mais nada à minha volta a desviar-me ou a tentar-me a atenção. É o viver o verdadeiro momento!

Viver no momento, verdadeiramente no momento! Não há nada mais belo do que isso!

Então sim, é por saber no meu interior que nunca voltarei a viver algo exatamente igual, que me debato no momento de o deixar. Não consigo deixar de sentir uma tristeza melancólica, deixada para trás pela nostalgia do que já foi e nunca mais será.

Porém, agora não era tempo para isso. O clima imposto pelos meus camaradas era de festa e euforia! Pedalamos com força e coração através do Vale Santo, uma zona mais baixa do planalto, onde predominam as pastagens para o gado. O seu nome deve-se à antiga tradição de peregrinos e devotos que durante séculos culminavam aqui a sua viagem.

Estava radiante e sentia-me mais forte do que nunca! Pedalei os últimos quilómetros divertida pela bicicleta que voava pelo trilho afora. A terra batida foi dando lugar a solo calcário, característico da zona, o que só aumentava a diversão. Sempre a direito e sempre a rasgar, até que finalmente chegámos à estrada nacional que liga a Sagres ao tão aguardado Cabo de São Vicente.

A emoção foi tomando conta de mim à medida que olhava para o farol lá ao fundo. Do meu lado direito ficava todo o planalto litoral, completamente imóvel, e do lado esquerdo o mar do Sul, irrequieto e cheio de vida, famoso pelas suas incríveis falésias de calcário.

O farol, inicialmente um ponto no horizonte, foi ganhando contornos à medida que nos aproximávamos, até que finalmente chegámos à fortaleza que o guarda há tantos anos.

Estava tão orgulhosa e FELIZ! Tinha chegado àquele cujo nome não queria chamar fim!

"...Sozinha, teria vagueado pelo planalto, tentando adiar continuamente aquele que seria o seu inevitável fim."

"Despedi-me com abraços apertados e promessas de se voltarmos a encontrar outro dia, e de bicicleta à mão, passei o portão rumo a um novo mundo!"

Seis dias culminavam naquele preciso momento, seis dias transformados numa fracção de emoção. Seis dias que se assemelharam a seis meses, seis dias mais intensos do que anos de uma vida!

Era ali que tudo terminava, outrora uma miragem, um sonho, um devaneio, um simples objetivo ou um esboço num caderno. O que realmente importava… o que verdadeiramente significava… não era ter chegado à meta, ao destino final… não era sequer poder afirmar que fizera tudo aquilo sozinha. O significado estava na entrega de mim mesma ao longo da viagem, na entrega das gentes que por mim se cruzaram, na entrega de toda e a mais simples presença da natureza.

Felicitamo-nos uns aos outros! Era bom poder partilhar aquela alegria com alguém! Estava capaz de abraçar o mundo inteiro pelo que sentia. Estava de coração CHEIO e a alma vibrava intensamente!

Depois das fotos da praxe e feitas as despedidas, fiquei uma vez mais sozinha. Ainda tinha alguns momentos até ao Jorge chegar, pelo que decidi procurar um lugar longe dos turistas. Saí da fortaleza e dirigi-me até um promontório de rocha que se precipitava para norte. Peguei a bicicleta pelos braços e levei-a, através do terreno acidentado, até à pontinha, dezenas de metros acima do mar.

Encostei a bicicleta à rocha e fiquei de pé a olhar em todo o meu redor! O quadro que se apresentava diante dos meus olhos era tão intenso e magnífico como os sentimentos que transbordavam dentro de mim. Momentos dos últimos dias passavam agora à frente dos meus olhos. E eu não podia parar de sorrir. Foi então que senti uma PAZ e tranquilidade inigualáveis!

E foi nesse instante que aconteceu algo que, acreditando ou não, pareceu tão mágico!

Sou meteorologista de profissão e tive seis abençoados dias de bom tempo, com o sol a iluminar o meu caminho. Isto até ao preciso momento que pus os pés naquele bocado de rocha! E foi no meio daquele turbilhão de sensações que começou a chover intensamente, ao mesmo tempo que o vento fustigava a falésia e os trovões rasgavam o céu. Naquele preciso momento, o final da minha grande viagem… naquele preciso lugar… na ponta mais a sudoeste de toda a Europa! Mágico não?!

Deixei as gotas da chuva escorrerem pela minha face, tal como as lágrimas que há tanto se queriam soltar. Deixei a natureza uma vez mais guiar-me e assim deixar-me levar pela sua beleza.

Tão selvagem! A chuva, o granizo, o vento ruidoso, o mar profundo e encrespado, as imponentes falésias invictas e uma vastidão incrível que parece nunca mais ter fim.

Foi assim que terminou o meu Caminho Histórico, a minha Rota Vicentina.

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Alentejo, Portugal

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