Família na neve

Um pouco do nosso mundo

"... Uma imagem diferente das que estou habituada, num mundo em que normalmente só estamos nós dois..."

A foto de capa não engana… é mesmo mãe e filhas numa colina nevada. Uma imagem diferente das que estou habituada, num mundo em que normalmente só estamos nós dois. E é por isso que levar a família a provar um pouco desse nosso mundo se torna tão fantástico. Eles gostam porque é diferente e lhes alimenta a alma, e nós ficamos cheios por podermos partilhar o que tanto adoramos.

Já não era a primeira vez que os levávamos numa viagem à Serra da Estrela… há uns anos pegámos em ambos os nossos pais e na minha irmã e fomos fazer um dos trilhos mais exigentes do planalto, trilho esse que nem nós havíamos feito antes… Que aventura, comédia e até drama foi! Uma história para sempre contar! E ficamos assim de voltar para uma prometida escapadela na neve.

A equipa estava montada… eu, o Jorge, os meus pais e a Sara, a minha irmã mais nova. Tudo a caminho da montanha mais alta de Portugal Continental.

Chegados ao planalto, encostámos o carro junto ao monumento da Senhora da Boa Estrela, onde me pareceu um bom recanto para uma primeira experiência na neve, num ambiente muito mais natural e isolado da típica correria dos turistas ao topo da serra. Calcei as botas de montanha à minha mãe e em tom de brincadeira dei os meus crampons à Sara e distribuí os piolets pelas duas, material utilizado na prática de Alpinismo. O meu pai, sorrindo, preferiu ficar ali por baixo e viu-nos desaparecer no manto branco.

A primeira reacção será sempre de carácter visual… o impacto com a paisagem branca que outrora fervilhava de tons verdes e castanhos. E logo de seguida somos surpreendidos pela reacção ao toque, à medida que nos deixamos afundar em cada passo dado naquele manto intocado. Mal sentiram a neve debaixo dos pés, os seus rostos revelaram de imediato a euforia sentida. Uma sensação que eu já conheço bem mas que nunca deixa de me entusiasmar das vezes que ali vou.

Adoro a magia da neve! Desde que cai das nuvens até se acumular por cima das rochas, dos arbustos e das árvores…

Gosto da sensação de pureza e da maneira como brilha ao sol, reflectindo quase toda a radiação solar de volta para o Espaço. Gosto da forma com que brinca com a paisagem, moldando e embelezando tudo aquilo que toca. Gosto de contemplar as suas variadas formas e texturas, que mudam consoante as condições atmosféricas que lhe deram origem. E é branca… tão branca que me deixa maravilhada pelo contraste que cria com o resto da paisagem despida. É gelada… mas continua a fazer chantagem para me embrulhar nela à medida que caminho. E até o som criado pelo afundar das minhas botas na neve me deixa tão animada e divertida.

"... Mal sentiram a neve debaixo dos pés, os seus rostos revelaram de imediato a euforia sentida..."

"... As montanhas viam-nos de longe e nós a elas... E eu ficava cá de baixo, a espreitar de sorriso nos lábios os seus feitos e feitios. "

Os primeiros passos sobre a neve depressa se vão tornando menos desajeitados até que começamos a vê-las aventurarem-se por rochas e encostas de neve, empenhando orgulhosamente o piolet que lhes oferecia ajuda à medida que avançavam. Lembro-me da sua alegria quando conquistavam pequenos obstáculos ou quando subiam ao topo de pequenos cumes, maravilhadas por aquela paisagem remota mas incrivelmente bela. As montanhas viam-nos de longe e nós a elas. A neve que se encontrava apenas a cotas mais altas desaparecia entre pontinhos bem ao longe até se tornar apenas rocha nua. E eu ficava cá de baixo, a espreitar de sorriso nos lábios os seus feitos e feitios. 

Deixei-as brincar num mundo que digo ser meu, num mundo que me faz tão feliz e onde tudo me faz sentido. Senti-me cheia de amor por estar a partilhar parte desse meu mundo com as minhas princesas! Um mundo também cheio de desafios e perigos como a minha mãe percebeu ao aventurar-se por uma face de neve gelada com uma inclinação mais comprometedora. Progredia cravando a ponta do piolet no gelo, mas rapidamente se viu a resvalar encosta abaixo até às rochas. E nós perplexos com o espectáculo e preocupados com o desfecho, fomos ao seu encontro. Depressa percebemos que ela já se ria às gargalhadas e também nós desatámos a rir.

De olhos no horizonte, voltámos a subir o planalto de encontro a novos cantinhos e desafios.

Como criancinhas, subíamos pela colina nevada uma e outra vez só para voltarmos a escorregar encosta abaixo. Ríamo-nos uns dos outros e uns com os outros, ao mesmo tempo que encorajávamos uma próxima descida ainda mais ousada. Eu ficava tão contente pela euforia e emoção que ecoavam nos seus rostos.

Partilhar a montanha e a neve estava a ser tão bom!

Onde a neve se acumulava aproveitávamos a desconcentração do inimigo para lhe atirarmos com uma bola de neve, o que depressa se tornou numa autêntica guerrilha… e a neve era atirada pelo ar vezes sem conta. Nós deixávamos escapar as eventuais gargalhadas à medida que tentávamos fugir da próxima remessa e a única coisa que nos fazia parar eram as nossas mãos geladas.

"... deixávamos escapar as eventuais gargalhadas... e a única coisa que nos fazia parar eram as nossas mãos geladas."

"...Uma panóplia de montanhas de rocha, polvilhadas por bocados de neve que se vão amontoando em dias escuros de Inverno."

Começaram a aparecer rastos na neve, memórias de brincadeiras, e as nossas pegadas deixaram marcas profundas, testemunhas dos nossos passos. Cada vez mais alto, avistámos parte das famosas encostas rochosas dos Cântaros e uma extensão de terreno que nem conseguíamos medir.

Mesmo à frente, aparecem as torres de pedra que assinalavam o topo da nossa montanha, essa que faz parte de um dos três Cântaros, o Cântaro Raso. As torres têm a altura de uma pessoa e, juntamente com as pequenas rochas dispostas no chão, impossíveis de identificar debaixo do manto de neve, criam um desenho com efeito em caracol. Já o tinha visto em dias de Primavera. Agora, apenas as torres me lembravam daquele lugar. Esse que com a sua vista privilegiada nos faz lembrar um lugar de culto dos nossos antepassados.

Daqui vemos a pequena estrada que se eleva sinuosa desde as Penhas da Saúde e a barragem do Viriato. O planalto parece terminar abruptamente logo ali à frente e a cor acastanhada da paisagem mais abaixo recorda-me dos conhecimentos de Meteorologia, por se tratar de um dia de enorme estabilidade, onde as poeiras e toda a poluição ficam aprisionadas àquele nível. Nós, bem mais acima, vemos um céu perfeitamente azul, onde se respira ar puro. Dali contemplamos o Cântaro Magro, uma enorme formação rochosa que se eleva até aos 1993 metros desde o famoso Covão d’Ametade, uma pequena e bela planície de origem glaciar onde “nasce” o rio Zêzere depois de as suas águas escorrerem pelas paredes íngremes do Cântaro. Também conseguimos pôr olho no Cântaro Gordo. Na base deste assenta a mais bela lagoa da Serra da Estrela, a Lagoa dos Cântaros. E claro, o enigmático Vale Glaciar do Zêzere, um dos maiores da Europa, sendo um incrível vestígio da última época de glaciação... Uma panóplia de montanhas de rocha, polvilhadas por bocados de neve que se vão amontoando em dias escuros de Inverno.

Voltámos ao carro e ao pai que nos aguardava. Ainda exaltámos por mais um pouco de neve, só mais um bocadinho… pelo que fomos dar um saltinho ao planalto do outro lado da Torre da Serra da Estrela. Ali, com colinas de neve mais íngremes e desafiantes, foi só deixar a imaginação levar-nos a melhor… ou a pior claro! Eu, a Sara e o Jorge até fazíamos descidas lado a lado, só para ver quem era o mais rápido.

À falta de trenó, tínhamos simples sacos de plástico para ajudar a reduzir o atrito. É triste saber que grande parte destes sacos trazidos pelas pessoas são deixados pela serra fora, tal como todos os tipos de trenós de plástico que se vão quebrando pelo caminho. É desconcertante ao ponto de me deixar com uma certa fúria. Sei bem como é, aliás já o vi… com o degelo na Primavera, toda a região mais perto da Torre e junto à estrada encontra-se minada destes plásticos. Sim, a serrinha que todos adoram e querem conhecer é tratada como um grande caixote de lixo, e porquê?! Acho que nem vale a pena responder a isto. O correcto eu sei bem… tudo o que se leva traz-se de volta e a natureza mantém-se como estava, no seu estado natural, ainda que nestes locais nunca o seja por completo.

Depois de mais umas descidas e até pequenos voos arrojados despedimo-nos da neve.

"...Depois de mais umas descidas e até pequenos voos arrojados despedimo-nos da neve."

"...As cores quentes do final de tarde condiziam com o calor que sentia no coração..."

O dia já dava sinais de cansaço ao invés de nós, que ainda queríamos continuar a brincar naquela paisagem branca. Antes de irmos até à pequena aldeia do Sabugueiro, fizemos um pequeno desvio até ao maior corpo de água da Serra da Estrela, a Lagoa Comprida.

Recordo com emoção aquele momento em que nós, as meninas, atirávamos bolas de neve ao pai. Um momento tão simples e no entanto tão único… tão autêntico e genuíno. Mais do que tudo, era poder estar ali com eles, a viver aquilo com eles e poder vê-los sorrir a meu lado. Daqueles momentos que valem o mundo e que me fariam dar o mundo para os voltar a ter mais uma vez. Que me farão chorar quando nãos os puder ter e que me vão aquecer o coração quando os recordar.

As cores quentes do final de tarde condiziam com o calor que sentia no coração, ali bem junto de quem mais amo e junto do que mais amo. Senti uma enorme humildade e gratidão por aqueles minutos sobre as rochas graníticas, olhando em conjunto o lago escuro que reflectia a montanha nevada tal como o meu rosto reflectia a minha alma.

Tal como prometido, passámos a noite numa das casinhas típicas da aldeia do Sabugueiro, as Casas do Cruzeiro. Já é habitual passarmos uma noite neste sítio tão tranquilo, que na verdade é a aldeia mais alta de Portugal. No Inverno tem outro sabor, as paredes antigas de granito protegem-nos do frio e do vento que sopra impiedoso lá fora, as pequenas janelas revelam-nos um pouco o mundo do lado de lá e as lareiras convidam-nos a passar um serão agradável e quente.

É sem dúvida um retiro do dia agitado que tivemos. Ainda assim, fomos caminhar um pouco até lá fora. Sempre o havíamos feito antes e não era hoje que íamos falhar nesta pequena tradição. Passámos pelas estreitas ruas da aldeia, iluminadas pelas luzes quentes dos candeeiros e pelo clarão que algumas janelas deixavam escapar, indicando a presença de uma fogueira acesa. À noite todos os pequenos sons ganham vida e a nossa imaginação deixa-se vaguear. Deixámos o conforto da aldeia e seguimos pela calçada até passarmos a ponte para o outro lado do rio. Longe das luzes, conseguimos ver por fim o espectáculo que o céu nos oferece com tantas estrelas e corpos celestes. A atmosfera  era incrível e nós caminhávamos, aninhados nos casacos, à medida que o vento frio que desce do vale nos soprava na face. Ouvimos os mochos ao longe e até uma coruja. Sente-se uma tranquilidade e uma paz que só mesmo sítios como este nos podem dar.

De manhã começa a azáfama do costume, talvez mais enternecida pela doçura da aldeia que não nos é indiferente. Já ouço a família na casinha de baixo e depressa abro a janela… entrego-me logo à paisagem que encontro, às cores suaves do nascer de um novo dia e aos aromas que o vento traz ao longo das montanhas. Há algo de mágico na janela… é uma abertura para algo onde não nos encontramos, um vislumbre de um sonho. Olho para a pequena igreja de pedra e vejo um rebanho de ovelhas e cabras guiadas pelos trajes de um pastor. É tudo tão autêntico que me faz querer pertencer àquele lugar onde a vida é tão simples quanto dura. De repente aparece na janela debaixo um sorriso pendurado num rosto ainda meio adormecido. “Bom dia” saudava a minha mãe. E um beijo ternurento do lado de cá da janela… uma forma maravilhosa de começar o dia.

" entrego-me logo à paisagem que encontro, às cores suaves do nascer de um novo dia e aos aromas que o vento traz ao longo das montanhas."

"...é aqui, nas margens do Rossim, que podemos ter um vislumbre da floresta que outrora cobriu grande parte da montanha."

Como nos encontrávamos pertinho, fomos dar um passeio ao Vale do Rossim, sem dúvida um dos recantos mais bonitos do planalto da Serra da Estrela. Fico fascinada pela beleza deste lugar, onde nos podemos deixar maravilhar pela barragem de tom azul profundo com os picos rochosos em pano de fundo, tantas vezes reflectidos nas suas águas. Ainda assim, o que torna este sítio tão especial são as lindíssimas árvores que se encontram em redor. Pinheiros silvestres, bétulas e pseudo-tsugas. A serra foi perdendo grande parte da sua cobertura florestal ao longo dos tempos devido à instalação do homem que foi dominando a paisagem para a transformar em pastagens. Nos dias de hoje é aqui, nas margens do Rossim, que podemos ter um vislumbre da floresta que outrora cobriu grande parte da montanha.

Naturalmente, sem plano algum, deixámo-nos vaguear ao longo das margem do grande lago. Só o tempo fresco nos lembrava tratar-se de um dia de Inverno, pois o céu quase nos fazia acreditar ser uma tarde de Verão. Foi tão agradável caminhar com a família pelo manto de minúsculos grãos de areia, arrancados pela água e vento às várias rochas de granito que ali se encontram. Ainda havia alguma neve aqui e acolá o que dava um toque mágico à paisagem invernal.

Lembro-me de abraçar o meu pai com toda a minha força. Estava radiante de o ver ali. Sempre foi mais fácil ter a minha mãe e irmã a alinhar em pequenas aventuras, pelo que tê-lo ali era simplesmente incrível! Lembro-me também de olhar para o outro lado do lago, onde se erguem amontoados os blocos de granito, por onde escapam memórias de outros dias em que eu e o Jorge nos aventurávamos, empoleirados de rocha em rocha, até aos seus mais ousados topos.

serra da estrela

Guarda, Portugal

também em portugal

3 Comments

  1. Sara Domingues

    Um retrato lindo de um dia inesquecível de uma grande e maravilhosa família. Palavras magnificas, que conseguem transportar uma pessoa para essa viagem no ponto mais alto de Portugal!

    Reply
  2. Vero

    Uma pequena história de amor que mostra como é possível ter um dia tão especial, não é preciso ir longe, mas sim levar o espírito e a companhia certos!

    Reply
    • Solange Domingues

      Obrigada pelo teu feedback Veronika =D Como costumo dizer… Nas viagens são as pessoas a cereja no topo do bolo. Sejam elas família, amigos ou alguém que se cruze no caminho.

      Reply

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

4 × two =

EnglishPortuguese